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5 de outubro: A marcha das mulheres a Versalhes

Nesta data deu-se um dos primeiros e mais importantes passos da Revolução Francesa, protagonizado por mulheres trabalhadoras.

“Entretanto, a escassez continuava terrível em Paris. Estava-se em setembro; haviam chegado as novas colheitas e, contudo, o pão faltava. Eram ajuntamentos à porta dos padeiros, e depois de longas horas de espera os pobres retiravam-se muitas vezes sem levar o seu pão. (…) Nas altas esferas o requinte do luxo atingira os extremos limites, mas a massa do povo, explorada à vontade, chegara a já não poder produzir o seu alimento no rico solo e no rico clima da França.”

(A Grande Revolução, P. Kropotkin)

Ilustração alusiva à marcha sobre Versalhes em 5 de outubro

Outubro de 1789, a Revolução Francesa dava seus primeiros passos e no dia 5 do mesmo mês o povo de Paris demonstraria que sua força poderia modificar os rumos do país. A marcha sobre Versalhes ou as Jornadas de Outubro fariam com que a família real, até então estabelecida no Palácio de Versalhes, fosse levada para Paris e ficasse próxima do povo no Palácio das Tulherias.

Antes da marcha, três eventos importantes já marcavam a história da grande revolução. O dia 20 de junho era o primeiro, com a formação da Assembleia Constituinte que elaboraria a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, seguido da tomada da Bastilha em 14 de julho e da extinção dos direitos feudais em 4 de agosto.

Paris fervia, o povo passava fome e a nobreza realizava festas luxuosas enquanto se armava contra a população. Nos dias 1 e 3 de outubro duas festas foram realizadas em Versalhes para celebrar a chegada do regimento de infantaria que serviria de guarda ao palácio do rei Luís XVI.

O boato das festas chegou na capital como uma afronta ao povo faminto. Além disso, movimentações de tropas ao redor de Paris a mando do rei sinalizavam que um golpe se preparava. No dia 5 de outubro uma manifestação de mulheres trabalhadoras que se reuniam em frente aos mercados seguiu, por influência dos agitadores revolucionários, até a prefeitura da capital. Esse ato concentrou cerca de 6 mil mulheres que decidiram ir até Versalhes para cobrar medidas da monarquia e se defender de qualquer possibilidade de ataque. Aos gritos de “Vamos buscar o padeiro, a padeira e o padeirinho (o rei, a rainha e o príncipe)”, marcharam as trabalhadoras por 14 quilômetros sob chuva até o palácio.

Essa marcha não foi um movimento espontâneo. Apesar do ato não ser chamado para ir até Versalhes, era uma ideia que se cogitava desde o início da revolução e foram os dirigentes revolucionários que agitaram a ida ao palácio. Entre eles estavam Danton, Marat e Loustalot, que se construíam naquele momento como dirigentes das massas para cumprir papéis determinantes nos anos subsequentes.

A multidão foi recebida pela Assembleia Nacional, que se reunia em Versalhes na época. Dentre os deputados que receberam estava Maximilien Robespierre que, ao dar ouvidos às reivindicações dessas mulheres trabalhadoras, ganharia ali parte da popularidade que alcançaria até dirigir a revolução no futuro.

No final do dia 5 já haviam mais de 20 mil pessoas no palácio aguardando um parecer do rei. A demora por uma resposta às mulheres e o cansaço resultam na ira dos manifestantes que invadem o palácio, procuram furiosos pela rainha Maria Antonieta, que não era bem quista pelo povo francês, e quando encontram seu quarto vazio o destroem.  Os guardas que tentavam impedir a entrada do povo começaram a trancar as portas do palácio e, na tentativa de impedir a continuidade da busca pela família real, são decapitados e suas cabeças fincadas nas pontas das lanças. 

La Fayette, um marquês entusiasta da Monarquia Constitucional, comandante da Guarda Nacional, e que mais tarde faria parte da contra-revolução, foi quem interviu para mediar o diálogo com o rei. Ele conseguiu convencer Luís XVI e Maria Antonieta a aparecer com seus filhos na sacada do Palácio. Mas isso não seria o suficiente para mudar a vontade do povo, que só sairia dali com o rei e a rainha.

Nesse meio tempo, a Assembleia Nacional aproveitou a oportunidade para fazer o rei promulgar a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que o próprio evitava aceitar e que naquele momento seria obrigado.

A carruagem real foi escoltada até Paris no início da tarde do dia 6. Ao seu redor iam as mulheres e mais o restante dos manifestantes que já somavam 60 mil. Pães, estocados em Versalhes, eram distribuídos para o povo e ao redor da carruagem real eram exibidas as cabeças dos guardas mortos anteriormente. O rei e a rainha foram levados até o Palácio das Tulherias, sua última morada. Eles tentaram fugir em 1791 para tentar conseguir apoio das monarquias europeias que temiam avanços da revolução para seus territórios, mas fracassaram e em 1793 foram guilhotinados.

As massas protagonizaram a maior parte dos momentos decisivos da revolução. Sem elas, a burguesia não derrotaria a monarquia e não se estabeleceria como classe dominante. Durante as jornadas de outubro de 1789, foram mulheres pobres, trabalhadoras que conduziram esse processo. Elas não sabiam assinar o próprio nome, como apontam relatos, mas compreenderam o quão eram fortes e obrigaram a monarquia a ficar sob o seu controle.

A imagem que ilustra esse episódio, com as mulheres carregando lanças e canhões, serve como um belo exemplo da força dos oprimidos. Que esse dia inspire homens e mulheres a transformar a sociedade hoje e por fim ao capitalismo. Novas jornadas virão e um mundo novo nascerá!

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