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400 anos da morte de Shakespeare: Um Revolucionário na Literatura (Parte 3)

Shakespeare transformou a literatura inglesa, atingindo alturas antes inéditas e que não foram atingidas posteriormente. Como um meteorito ardente, cruzou o firmamento e lançou uma luz gloriosa sobre todo um período de nossa história.

A época de Shakespeare também foi a época de Maquiavel. Este brilhante filósofo italiano foi o homem que explicou pela primeira vez que a conquista e manutenção do poder político não tem nada a ver com a moralidade. O próprio estado é a violência organizada, e a tomada do poder somente pode acontecer por meios violentos. Os moralistas trataram duramente o filósofo italiano, mas a história mostrou que sua análise era fundamentalmente sólida.

[Partes 1 e 2]

Shakespeare e a política

Nas peças de Shakespeare, particularmente nas peças históricas, temos uma descrição eloquente na literatura do que Maquiavel demonstrou na filosofia política. As peças históricas lidam com as lutas pelo poder, que culminaram no que se tornou conhecido para nós (aliás, graças a Shakespeare) como a Guerra das Rosas. A luta pelo poder (neste caso, o poder monárquico) é realizada através da intriga, punhaladas pelas costas, traição e assassinato.

Este foi um mundo em que a violência e a traição eram as ferramentas normais do comércio na política monárquica. O sistema feudal estava vindo abaixo e o capitalismo começando a se enraizar. A velha aristocracia estava sendo minada e fisicamente aniquilada por um longo e sangrento conflito. Esse conflito sem sentido entre dinastias rivais se caracterizou pela violência extrema e vandalismo na busca do poder. Duas quadrilhas de barões ladrões se engalfinharam, enquanto o Kingmaker Warwick [Richard Neville, Conde de Warwick – NDR] se equilibrava entre eles. Durante trinta e dois anos os nobres da Inglaterra massacravam-se uns aos outros sem piedade.

A amarga luta pelo trono inglês desempenhou um papel importante em minar a ordem feudal na Inglaterra. No final ambas as Casas – York e Lancaster – estavam exaustas. Eduardo IV (1461-1483), da Casa de York, foi sucedido por seu irmão Ricardo, que se tornou famoso através da peça de Shakespeare, Ricardo III. Nessa peça Shakespeare descreve como o Duque de Clarence foi esfaqueado e, em seguida, afogado em um barril de vinho por ordens de seu irmão, Ricardo, Duque de Gloucester, mais tarde Ricardo III. Henrique VI foi assassinado na prisão, provavelmente pelo próprio Ricardo. Isso era típico aos encantadores métodos utilizados pela nobreza da Inglaterra na Era da Cavalaria.

Este foi um exemplo da “demonstração de força brutal em vigor na Idade Média” a qual se refere Marx em O Manifesto Comunista. Essas guerras civis assassinas terminaram, finalmente, com a morte de Ricardo III em 1485 , o último Rei da Casa de York, em Bosworth,. O resultado foi a elevação de uma nova dinastia fundada pelo aventureiro galês, Henrique Tudor.

Os Tudors encorajaram o desenvolvimento do comércio, da indústria e da nascente burguesia. Mas a nova dinastia era instável e seus fundamentos jurídicos, muito vacilantes. Tanto Henrique VII quanto seu filho Henrique VIII enfrentaram conspirações e revoltas que ameaçavam empurrar a Inglaterra de volta à guerra civil. Por esta razão, a maioria das classes mais altas e das classes médias foi fervorosamente leal à Elizabeth, que parecia interpor-se entre eles e a um retorno ao caos que eles temiam.

Essa foi uma época de grande insegurança em que conspirações, intrigas políticas e rebeliões sempre estavam no ar. O grande contemporâneo de Shakespeare, Christopher Marlowe, que gozava de grande popularidade e êxitos com peças como O Judeu de Malta e Tamerlão, foi morto em uma briga de bar, aparentemente porque era suspeito de ser espião.

A própria Elizabeth viveu em um estado permanente de ansiedade, com medo de ser assassinada por mãos de católicos descontentes ou de agentes espanhóis. Sua pessoa era protegida por uma vasta rede de espiões e informantes sob o olho vigilante de Walsingham, um de seus ministros mais leais. Há um retrato de Elizabeth que foi pintado em sua velhice. Seu rosto foi pesadamente maquiado. A fim de esconder a feia realidade por baixo, ele foi pintado de branco. Ela está vestida em sedas e cetins magníficos e coberta de joias preciosas.

Mas uma inspeção mais atenta revela um curioso e um tanto macabro detalhe. Seu vestido é decorado com olhos e ouvidos humanos. Seu significado é perfeitamente claro: “Meus olhos e ouvidos estão por todas as partes. Vejo o que você está fazendo. Ouço o que você está sussurrando. Posso ler seus pensamentos mais íntimos e penetrar o segredo de seu coração e alma”. Em uma frase: A Grande Irmã está te observando.

Em nenhum lugar este mundo particular de intrigas, conspirações e assassinatos é melhor descrito do que em Júlio César. Aqui a psicologia, que impulsiona políticos ambiciosos, é dissecada com a precisão de um cirurgião qualificado. Júlio César é outra narrativa de intriga maquiavélica, e (literalmente) de punhaladas pelas costas, que transmite fielmente a essência da vida política, não somente do final da República Romana, como também de todos os períodos da história, em especial da nossa.

Olhando o rosto de seus futuros assassinos ao seu redor, César comenta com irônico senso de humor:

Ao meu lado só quero gente gorda, pessoas de cabelos luzidios, que durmam toda a noite. Aquele Cássio é seco por demais; inculca fome, pensa muito. É indivíduo perigoso.

Antônio tenta tranquilizá-lo:

Não tenhas medo dele; não é homem perigoso, senão romano nobre e bem-intencionado.

Mas César não é enganado, respondendo:

Desejara que não fosse tão magro. Pouco importa! Não o temo.

(Júlio César, ato 1, cena 2)

Em Henrique VI, o Duque de Gloucester (o futuro rei Ricardo III) diz:

“Ora, eu posso sorrir, e matar enquanto sorrio,

E chorar ‘contido’ pelo que aflige meu coração,

E molhar meu rosto com lágrimas artificiais,

E modelar meu rosto para todas as ocasiões”

(Henrique VI, Parte 3, Ato 3, cena 1)

Aqui, em poucas linhas, temos a essência destilada do que agora chamamos de Maquiavelismo. É um eco assustador das palavras postas na boca de Donalbain em Macbeth: “Há punhais no sorriso dos homens”. Na mesma peça, Duncan, meditando sobre a morte do Conde de Cawdor, pronuncia as seguintes palavras:

“Não existe arte que ensine a ler no rosto as feições da alma. Era um fidalgo em quem depositava absoluta confiança”

(Macbeth, Ato 1, cena 4)

Tudo isso é um reflexo fiel do espírito da época. Apesar de sua brilhante aparência externa, o mito da “Feliz Inglaterra” nos tempos Elisabetanos era apenas isso – um mito. Foi uma época de extrema insegurança, em que conspirações de assassinato sempre estavam presentes, espiões escutavam em cada esquina de rua e em cada taberna, e com uma atmosfera cheia de medo e suspeita.

A própria Elizabeth estava impregnada dos hábitos de uma característica mente Maquiavélica. Passou a maior parte de sua vida consumida pela suspeita e pelo medo de ser assassinada. Contra inimigos reais ou imaginários, mostrou-se absolutamente impiedosa. Um homem poderia ser o seu favorito em um momento, somente para se encontrar prisioneiro na Torre de Londres esperando a execução em outro.  

Uma oportunista com poucos princípios além da sobrevivência pessoal, suas crenças religiosas sempre estavam em segundo lugar em relação àqueles princípios. Mesmo em suas perseguições, faltava-lhe a convicção de seu falecido irmão Edward, um Protestante fanático, ou sua irmã Maria, católica igualmente fanática. Maria queimou centenas de pessoas, as que considerava hereges, para salvar suas almas. Elizabeth enforcou ou cortou cabeças, não para salvar almas, mas para si mesma, seus interesses e seu trono.

A atitude de Shakespeare com relação à revolução

As peças de Shakespeare podem nos dizer muito sobre a vida no final do século XVI e início do século XVII. Foi um tempo de tremenda turbulência política e social. Uma peça em particular teve um papel significativo nos acontecimentos políticos. Aqui, o envolvimento de Shakespeare na política , embora de forma indireta , poderia ter terminado muito mal para ele. Isso ocorreu no final do reino de Elizabeth, quando ela já era uma anciã e as especulações sobre a sucessão se agudizavam.

Como regra, a mensagem das peças históricas de Shakespeare é pró-monárquica e, nesse sentido, conformista. Por razões óbvias, ele desejava adquirir os favores do monarca reinante – tanto de Elizabeth quanto de seu irmão James, mais tarde. A razão disso não era puramente pecuniária. Shakespeare e sua geração tinham todas as razões para temer a instabilidade política. Sua psicologia estava enraizada na experiência dos recentes acontecimentos. A memória da Guerra das Rosas ainda estava vívida na mente das pessoas.

No entanto, em várias de suas peças, Shakespeare dá livre curso a pensamentos subversivos e até mesmo revolucionários. Shakespeare era capaz de ver o mundo a partir de todos os ângulos possíveis. Apesar de pertencer a um ambiente relativamente privilegiado, ele era capaz de entender a miséria e o sofrimento de outras pessoas. Viveu em uma época em que o colonialismo estava em seus primórdios. Europeus brancos estavam entrando em contato com pessoas de diferente cor, religião e costumes. O resultado foi um choque cultural violento, o que geralmente não tem um final feliz.

Em A Tempestade, a última peça de Shakespeare, encontramos uma surpreendente denúncia da escravidão colonial. Caliban é um ser monstruoso vivendo em estado de selvageria, e que foi escravizado pelo feiticeiro Próspero, o principal personagem desta peça. Este último é retratado como um mágico e como uma pessoa altamente erudita. De acordo com alguns críticos, Próspero é a representação do próprio Shakespeare como um poderoso homem do Renascimento. No entanto, Shakespeare põe na boca de Caliban um discurso que expressa, de forma eloquente, a revolta do escravo contra seu mestre:

“A falar me ensinastes, em verdade. Minha vantagem nisso é ter ficado sabendo como amaldiçoar. Que a peste vermelha vos carregue, por me terdes ensinado a falar vossa linguagem”.

(A Tempestade, ato 1, cena 2)

A própria Londres era um lugar muito violento naqueles dias. Havia distúrbios frequentes, principalmente por parte de aprendizes pobres que expressavam suas frustrações atacando os criados dos cavalheiros, estrangeiros e prostitutas. Tais distúrbios eram considerados pelas autoridades da cidade como parte normal da vida. Muito mais graves eram as explosões de rebelião nas áreas rurais. Estas foram provocadas pelo cerco das terras comunais, dos terrenos baldios e das florestas, por gananciosos proprietários de terras e agentes da Coroa.

Esses protestos populares contra as cercas eram muito comuns na época de Shakespeare, especialmente no período entre 1510-1610. Geralmente consistiam em destruir as cercas e em preencher as valas. Mulheres e crianças participavam dessas ações. Os distúrbios nas pequenas aldeias, muito comuns, eram considerados delitos menores. Mas os de grande escala eram punidos como traição. O maior, conhecido como a Rebelião de Kett, envolveu 16 mil camponeses. Seu líder Kett morreu na prisão. Teve a sorte de não ter sofrido um destino pior.

A rebelião de Cade

Há um desafio à autoridade em Hamlet, Júlio César e Ricardo II. No entanto, Shakespeare não era um revolucionário social. A mensagem das grandes peças históricas de Shakespeare é precisamente esta: uma advertência contra o caos da luta civil e da revolução. A única descrição explícita de revolução social em Shakespeare está contida na peça Henrique VI, parte 2.

Os fatos do caso são os seguintes. Durante o caótico reinado de Henrique VI, o campesinato, enfurecido pela cada vez mais pesada carga de impostos e outras medidas opressivas, se rebelou. Em junho de 1450, um exército de 20 mil rebeldes de Kent marchou sobre Londres sob a liderança de um homem chamado John Cade, supostamente um irlandês, derrotou as forças enviadas pelo Rei contra os rebeldes e matou seu comandante, Sir Humphrey Stafford.

Em Henrique VI, Lorde Say descreve Kent como:

“(…) a zona mais culta de toda esta ilha; a terra, boa, porque de bens repleta; o povo, ativo, valente, liberal e muito próspero”.     

No entanto, na mesma peça, os homens de Kent são descritos em termos negativos, como rebeldes sem causa, desordeiros e insubmissos contra a autoridade. Mas este julgamento parece ser tanto unilateral, quanto injusto. Como era normalmente o caso em todos estes levantamentos durante a Idade Média, os rebeldes afirmavam estar lutando, não contra o Rei, mas contra seus ministros, especialmente o tesoureiro real, Lorde Say. Essas reivindicações eram bem-recebidas pelo povo de Londres e também pelos soldados do exército do Rei. Sem esperança de vitória, o rei fugiu para a segurança relativa de Kenilworth.

O temor de Henrique era bem-fundamentado. À medida que os rebeldes se aproximavam da capital, o exército do Rei desvanecia, seus soldados se recusavam a combater os rebeldes que mantinham um admirável nível de disciplina. Os rebeldes entraram em Londres sem resistência e capturaram os Lordes Say e Cromer, aos quais decapitaram. Mas, a partir daí o movimento pareceu perder seu senso de direção e degenerou em meros distúrbios. Cade tinha dado ordens para que não houvesse pilhagens e roubos. No entanto, alguns dos rebeldes começaram a saquear as casas dos ricos, provocando reações contra eles. Os rebeldes foram forçados a deixar Londres e Jack Cade fugiu para Kent, onde foi morto por um xerife, supostamente enquanto se ocultava em um jardim.

A impressão que se tem ao se ler a versão apresentada por Shakespeare em sua peça Henrique VI é desfavorável. Reflete os temores das classes altas elisabetanas com relação às massas de pessoas pisadas e oprimidas que representavam uma ameaça constante à sua situação privilegiada. A pequena nobreza elisabetana deve ter sentido que estava sentada à beira de um grande e perigoso vulcão que, a qualquer momento, poderia entrar em erupção com violência elementar. Estes temores claramente coloriram o retrato que Shakespeare fez de Jack Cade e seu exército rebelde. Faz Cade dizer:

“Não deixemos vivos nenhum lorde, nenhum desses fidalgos. Só poupai as pessoas que estiverem de sapatos ferrados, que são todos honestos e econômicos e, certo, se bandeariam para o nosso lado, se tivessem coragem para tanto”

“Nós só ficamos em ordem, quando estamos fora de ordem”.

Supõe-se que Cade havia dito:

“Obrigado, bom povo!…não haverá necessidade de dinheiro; todo o mundo há de comer e beber à minha custa.

“Sete pães de meio pêni serão vendidos apenas por um pêni.

“Todo o reino ficará sendo propriedade comum – nenhuma propriedade privada; apenas tome o que você quiser.

“Farei que todos usem a mesma libré, para que se comportem como irmãos, e me honrem como a seu senhor”,

Neste ponto, Dick o Açougueiro grita a famosa deixa,

“A primeira coisa que devemos fazer é matar todos os magistrados”.

Neste ponto, entra um escrivão. Alguém acusa o escrivão de ser capaz de escrever e ler. Cade ordena:

“Enforque-o com sua pena e tinteiro pendurados no? pescoço”.

No final, a cabeça decepada de Cade foi exibida através de Londres e seu corpo foi deixado para “alimento dos corvos”. As classes médias elisabetanas podiam dormir sossegadas em suas camas mais uma vez.

Nunca saberemos o que Jack Cade realmente disse, mas as linhas acima ecoam suspeitosamente o que os defensores do capitalismo repetem constantemente: que a ideia de socialismo é utópica, que estamos prometendo às pessoas coisas que não podem se realizar, e que enganamos as “massas ignorantes” com a promessa de um paraíso de tolos.

Uma coisa está clara: William Shakespeare não era um revolucionário. Ele apoiou a ordem existente da Inglaterra Elisabetana, sobre a qual seu êxito se baseava. Ele apoiou a monarquia e considerava todos os movimentos das classes oprimidas, no melhor dos casos, equivocados, e, no pior, uma receita para o caos e a anarquia. Apesar disto, existem muitos elementos nas peças de Shakespeare que mostram uma profunda compreensão pelos sofrimentos dos oprimidos, bem como o que se poderia chamar de “sentido comum”. Não é acidental que estas peças encontrassem o favor, não somente da próspera classe média da qual ele se originava, como também das camadas mais pobres da sociedade.

A Irlanda e a Rebelião de Essex

A acumulação primitiva não significou somente o saque e a espoliação do campesinato inglês, como também a ainda mais brutal espoliação das terras do povo irlandês. O período Tudor e, em particular, o período elisabetano, foram marcados pela opressão mais feroz dos irlandeses. Aqui a opressão de classe foi marcada mil vezes mais por diferenças nacionais, religiosas e linguísticas.

A Irlanda foi a primeira colônia da Inglaterra, e a verdadeira face cruel da classe dominante inglesa pode ser vista em seu tratamento do povo irlandês. Os irlandeses eram tratados como escravos e criminosos, como estrangeiros em sua terra natal. A soldadesca inglesa massacrou homens, mulheres e crianças sem misericórdia, exterminando comunidades inteiras. Para os senhores ingleses, os irlandeses não eram seres humanos, apenas um pouco melhor que animais sem quaisquer direitos, inclusive o direito à vida.

Como resultado, houve toda uma série de revoltas e rebeliões sangrentas, implacavelmente reprimidas pelas forças da coroa inglesa. A mais séria destas foi a rebelião de ?Ulsterman irlandês, Hugh O’Neill (Aodh Mor O Neill), conde de Tyrone, que derrotou repetidamente as forças inglesas e que fez propostas à Espanha, convidando uma intervenção militar em nome de sua comum causa católica.

A coroa inglesa gastou um monte de dinheiro e perdeu um grande número de homens neste conflito sangrento. O momento mais sombrio da Inglaterra na Irlanda veio em 14 de agosto de 1598, quando as forças inglesas foram cortadas em pedaços na batalha do Yellow Ford, no Condado de Armagh. 2.000 ingleses, incluindo seu comandante, o marechal da Irlanda Sir Henry Bagenal, foram mortos. Já com o controle de Ulster e Connacht, o exército de O’Neill avançou rapidamente para Leinster e em seguida para Munster.

Nesta situação desesperada, Elizabeth enviou um de seus “favoritos”, Robert Devereux, segundo Conde de Essex, à Irlanda, com uma enorme força de 17 mil soldados de infantaria e 1.500 cavaleiros,  2.000 destes eram veteranos transferidos dos Países Baixos e com a promessa de enviar mais 2.000. Dois anos antes, Essex se tornara herói nacional quando compartilhou o comando da expedição que capturou Cádiz da Espanha.

Com uma força tão grande quanto essa, o “herói de Cádiz” dificilmente poderia deixar de esmagar os rebeldes irlandeses. Mas fracassou. Devereux parece ter sido um pirralho aristocrata mimado com fortes tendências narcisistas. Excessivamente apaixonado por sua aparência pessoal (ele usava cabelos longos), sua sensível autoestima não era acompanhada pela coragem e visão no campo de batalha. Sua campanha militar fracassou miseravelmente. Comportou-se como um covarde, cujo único êxito residia em perpetrar os massacres habituais de homens, mulheres e crianças irlandesas.

No final, caiu em uma armadilha cuidadosamente preparada para ele por O’Neill. Este último ofereceu-lhe uma trégua, que ele aceitou com entusiasmo. Em seguida, entrou em uma negociação privada de um acordo com o rebelde irlandês. Este foi um grande erro. Quando Elizabeth se inteirou do assunto, entrou em fúria, suspeitando de traição. Para tornar as coisas ainda piores, Devereux apressou-se a ir a Londres para se explicar com sua velha amante, irrompendo em seu quarto de dormir com suas botas de montaria e seu manto salpicado de barro, para produzir um maior impacto.

Sem dúvida teve impacto sua espetacular entrada. Elizabeth, que agora requeria várias horas à cada manhã de seus serviçais para pintar seu rosto de branco, vesti-la com elegância e fazer tudo o que era possível para encobrir as devastações da idade, não estava de todo acostumada a homens – mesmo seus antigos amantes – aparecendo sem aviso prévio ao seu lado, nesse estado de desnudamento. Devereux cometera a gafe mais imperdoável e iria pagar por isto.

Um dos aspectos mais cativantes do Conde de Essex era a sua incansável devoção e apoio às artes. Ele fez amizade com Shakespeare e assistia às suas encenações, sendo aparentemente a tragédia de Ricardo II a sua favorita. Essa peça narra a história dos últimos dois anos do reinado de Ricardo II e de como ele foi deposto, encarcerado e morto por Bolingbroke – o futuro Henrique IV.

No sábado, 7 de fevereiro de 1601, exatamente dois anos antes da morte da velha rainha, foi pedido à companhia de Shakespeare para realizar a peça Ricardo II no Globe Theatre. Desempenhou um papel fatal na conspiração idealizada pelo Conde de Essex depois que ele entrou em desgraça e foi banido da corte.

Shakespeare escreveu e publicou Ricardo II por volta de 1595. Os paralelos entre a rainha idosa e Ricardo II foram demasiado desconfortáveis. É claro que Elizabeth estava ciente dos paralelos políticos entre ela própria e Ricardo II, e suas potenciais ramificações.

A Rainha Virgem, como ela gostava de ser conhecida, não teve filhos. O próximo na linha de sucessão seria a Rainha Mary dos Escoceses, a quem ela tinha executado enquanto culpava cinicamente outras pessoas. O candidato mais provável, depois disso, era o filho de Mary, o Rei James VI da Escócia. Embora ele próprio estivesse claramente inclinado na direção do Catolicismo, era mais pragmático do que sua mãe, cuja paixão pelo catolicismo a levou direto ao cepo do carrasco.

Visto que James deixou transparecer que ele estava disposto a fazer um acordo com o partido Protestante em Londres se ele chegasse ao trono, uma facção da nobreza inglesa viu James como um candidato possível e entrou em contato com ele. Entre estes, quase certamente, estava Robert Devereux. Era este o turbulento contexto político e social das peças de Shakespeare do período entre 1590 e 1613. A peça mostra a derrubada de Ricardo II por um grupo de nobres rebelados. A queda do rei é retratada na seguinte cena:

NORTHUMBERLAND

“Milorde, ele se encontra à vossa espera no pátio baixo. Não quereis descer?

REI RICARDO II

“Descer… Descer… Já vou, como o brilhante Faetonte, que não tenha mais domínio sobre os corcéis indóceis. É para irmos ao pátio baixo? Pátio baixo,é certo, onde os reis se rebaixam, visitando traidores e ficando às ordens deles. Baixa, rei, que o sinistro mocho pia onde exultar devera a cotovia”.

(Ricardo II, Ato 3, Cena 3)

No contexto dado, a peça era provocativa, politicamente subversiva e até mesmo traição. Os apoiadores de Robert Devereux pagaram à companhia de Shakespeare quarenta shillings – bem acima da tarifa normal – como suborno para a realização da peça no dia e hora designados. A realização foi concebida como propaganda para convencer o público da justiça da causa dos rebeldes.

No dia seguinte, 8 de fevereiro, Devereux marchou a Londres à frente de 300 homens armados na esperança de tomar a coroa. Mas suas esperanças foram logo frustradas. O povo não se levantou e a rebelião terminou em uma farsa. Essex foi capturado e, em 25 de fevereiro de 1601, foi decapitado como traidor. Dizem que Elizabeth chorou amargamente o destino de seu antigo amante. ?Dizem também que ela chorou o destino de Maria Rainha dos Escoceses e de outras de suas vítimas. O quanto eram sinceras essas lágrimas é uma incógnita, mas nenhuma delas serviu para deter a queda do machado sobre seus alvos.

Estavam Shakespeare e sua companhia conscientes do significado real da peça que lhes foi pedido para encenar? Ou foram atraídos pelo dinheiro extra que ofereceram? De qualquer forma, eles escaparam sem maiores problemas. Alguns membros do público foram presos e executados por traição, mas nenhuma acusação foi lançada contra Shakespeare ou os atores.

Deu-se conta a própria Elizabeth do significado da peça? William Lambarde informou que em agosto de 1601 ele teve uma conversa com a Rainha na qual ela disse: “Eu sou Ricardo II, não sabeis? ”. A autenticidade desta declaração foi questionada – como muitas outras coisas. Mas me agrada pensar que é verdadeira. Em um supremo ato de ironia histórica, foi ordenado à companhia de Shakespeare encenar Ricardo II em Whitehall na presença da própria rainha, na terça-feira do carnaval de 1601 – um dia antes da cabeça de Essex ser separada de seus ombros. Talvez a velha rainha estivesse desfrutando de uma pilhéria particular à sua custa.

Um novo reinado

Se o Conde de Essex tivesse um pouco mais de paciência poderia ter alcançado seu objetivo e mantido sua cabeça. Em 1603, James VI da Escócia tornou-se o Rei James I da Inglaterra. Inglaterra, Escócia e Gales estavam agora unidos sob uma só coroa. Dono de uma inteligência aguçada, e de um instinto ainda mais aguçado de autopreservação, James era um especialista nas sombrias artes da manobra e da intriga. Durante anos ele esteve conspirando para tomar o trono inglês (a que tinha um direito de descendência, embora não particularmente sólido), uma vez que Elizabeth havia ido para um mundo melhor. Há poucas dúvidas de que ele esteve envolvido na conspiração de Essex. James imediatamente libertou da prisão os membros sobreviventes da facção de Essex.

Como Rei da Escócia, um país relativamente pobre, James não era capaz de se entregar às extravagâncias a que aspirava. Agora, com o tesouro inglês cheio do ouro roubado aos espanhóis à sua disposição, o rei podia se dar ao luxo de ser generoso com o dinheiro. Sua corte se tornou conhecida por sua prodigalidade e extravagância, mas também se tornou um ninho de intrigas e de disputas por posições. James teve seus cortesãos favoritos – geralmente homens jovens e de boa aparência – que recebiam requintados presentes. Suas ligações românticas podem ter sido apenas a expressão de “amor físico e espiritual apaixonado”. Mas isto não impediu às pessoas de especular que estas relações eram de natureza um tanto mais que platônicas.

Sobre o Rei James os teatros floresceram como nunca antes. Shakespeare foi beneficiário direto de sua generosidade pródiga. Sua companhia foi premiada com uma patente real. A convite do rei, a companhia teatral de Shakespeare, os Homens do Lorde Camareiro, agora conhecida como os Homens do Rei, produziu novas obras sob o seu patrocínio. Foi durante o reinado do rei James que Shakespeare escreveu muitas de suas mais celebradas peças que tratam da luta pelo poder político. Entre elas estão Rei Lear, Antônio e Cleópatra e, naturalmente, Macbeth.

Tendo chegado tão recentemente perto do desastre em relação ao final da Rainha Elizabeth, Shakespeare estava ansioso para ganhar as boas graças do novo monarca desde o início. Para isso, ele compôs uma de suas maiores peças. Escrita no início do reinado de James, Macbeth (“a peça escocesa”) foi claramente composta como um meio de impressionar o novo monarca. A peça presta homenagem à ascendência escocesa do rei, apresentando o ancestral de James, Banquo, sob uma luz muito lisonjeira, enquanto a presença das três bruxas foi projetada para agradar a um homem que era obcecado com o tema de bruxas e bruxarias.

Assim que ocupou o trono da Escócia, James percebia-se a si mesmo como um ser sagrado. Ele também sentia que tinha uma visão especial para identificar os agentes de satanás. Tinha um medo mórbido de uma morte violenta e via a feitiçaria como um mal que ameaçava seu governo divino. Antes de seu reinado, a perseguição à bruxaria tinha sido rara na Grã-Bretanha. Enquanto milhares de supostas bruxas foram queimadas no continente europeu, somente um número relativamente pequeno delas sofreu esse destino durante o reinado de Elizabeth. Mas James mudou tudo isso. Em 1590, ele supervisionou pessoalmente o julgamento das bruxas de North Berwick. Mais de setenta pessoas foram acusadas de produzir a tormenta que quase afundou o navio de James enquanto ele navegava da Noruega para casa  com sua nova esposa, Ana da Dinamarca.

O número exato de pessoas queimadas na fogueira em consequência desse julgamento é desconhecido. Mas milhares de mulheres escocesas e alguns homens foram acusados de bruxaria, torturados e mortos, particularmente depois de 1597, quando James publicou um livro sobre Demonologia. Quando se tornou rei da Inglaterra, James levou seus pontos de vista sobre a bruxaria ao Sul da fronteira, onde as leis contra ela eram bem menos duras do que na Escócia. Apenas um ano depois que James ascendeu ao trono inglês, foi aprovada uma nova lei sobre a bruxaria, que tornou a “elevação dos espíritos” um crime punível com execução.

James gostava de realizar festas luxuosas e mascaradas para a nobreza da corte. Os serviços de um escritor tão consumado como Shakespeare eram muito bem-vindos para ele. E ele estava preparado para pagar a conta. Macbeth foi o primeiro drama inglês a retratar bruxas reunindo-se secretamente para realizar seus ritos diabólicos. Realizada para a corte de James em 1606, a peça provavelmente encontrou sua aprovação mais entusiasta. Pode-se duvidar que este entusiasmo seria compartilhado pelos pobres coitados que pagavam com suas vidas pelas fantasias mórbidas de Sua Majestade.

O luxuoso estilo de vida da corte de James I levou o reino? o levou? inevitavelmente a dívidas igualmente monumentais. A conta era naturalmente apresentada aos súditos do rei. As disputas parlamentares sobre as dívidas do rei, sem dúvida, tiraram algo do brilho das alegrias da vida da corte. Mas essas continuaram alegremente. Em última instância, as dívidas que deixou para o seu filho e sucessor, Charles I, levaram o rei e o parlamento a um conflito e, posteriormente à Guerra Civil e à Revolução. Mas isso já é outra história.

[Continua]


Artigo publicado originalmente em 23 de setembro de 2016, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “400 Years since the Death of Shakespeare: A Revolutionary in Literature – Part three“.

Tradução Fabiano Leite.

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