Início / Artigos / Arte & Cultura / 400 anos da morte de Shakespeare: Um Revolucionário na Literatura (Parte 1)

400 anos da morte de Shakespeare: Um Revolucionário na Literatura (Parte 1)

Shakespeare transformou a literatura inglesa, atingindo alturas antes inéditas e que não foram atingidas posteriormente. Como um meteorito ardente, cruzou o firmamento e lançou uma luz gloriosa sobre todo um período de nossa história.

Shakespeare transformou a literatura inglesa, atingindo alturas antes inéditas e que não foram atingidas posteriormente. Como um meteorito ardente, cruzou o firmamento e lançou uma luz gloriosa sobre todo um período de nossa história. Seu impacto na literatura mundial foi, sem dúvida, maior que a de qualquer outro escritor. Suas obras foram traduzidas em todas as línguas. Séculos após sua morte, sua estrela não empalideceu, pelo contrário, brilha tão intensamente como no primeiro dia.

“Ele não foi de uma era, mas de todos os tempos” (Ben Jonson, sobre Shakespeare)

Em literatura e Revolução (1924), Trotsky escreveu: “Uma nova classe não começa a criar toda a cultura desde o início, mas entra na posse do passado, ordena-o, reorganiza-o e constrói sobre ele”. Ele apresenta Aristóteles junto com Goethe como os picos da realização humana. Ele considerava Édipo Rei de Sófocles como uma obra que “expressa a consciência de todo um povo”. As mesmas palavras podem ser ditas do maior escritor inglês, William Shakespeare.

Surpreende, então, que a vida do homem considerado por muitos como o maior de todos os escritores seja muito pouco conhecida. Sabemos quando Shakespeare morreu, mas não estamos exatamente seguros de quando ele nasceu. Os registros mostram que ele foi batizado em 26 de abril de 1564, em Stratford-upon-Avon, uma pequena cidade a 100 milhas a Noroeste de Londres, muito longe do centro cultural e comercial da Inglaterra. Uma vez que os recém-nascidos eram batizados três dias após o nascimento, ele deve ter nascido em 23 de abril, mesmo dia em que morreu aos 52 anos de idade, embora tal fato seja contestado.

Grande parte de sua vida está envolta no véu do mistério. O pouco que conhecemos de sua vida pode ser dito brevemente. Não nasceu de família nobre ou particularmente rica. Não foi à universidade. No entanto, tornou-se o mais famoso escritor do mundo.

A família Shakespeare

À primeira vista, William Shakespeare não parecia destinado à grandeza. Seu pai, John Shakespeare, começou a vida como aprendiz na produção de luvas e na curtição de couros, e, mais tarde, começou a lidar com produtos agrícolas e lã. Como um self made man [homem que se fez por si mesmo – NDT], ele se casou com Mary Arden, filha de um próspero agricultor local, proprietário de uma fazenda de sessenta acres. William foi o terceiro de oito filhos.

Parece que nem John nem Mary sabiam escrever. O pai de Shakespeare utilizava o compasso de Glover para assinar. Mas isto não o impediu de se tornar um membro importante da comunidade. Entre outros cargos civis, John Shakespeare foi eleito como provador de cerveja do município de Stratford, um ofício muito importante visto que as pessoas bebiam cerveja porque naqueles dias era mais seguro do que beber água. Mais tarde, tornou-se tesoureiro do município e vereador em 1565 (uma posição que proporcionou educação gratuita aos seus filhos na Escola Primária de Stratford), alto oficial de justiça, ou prefeito, em 1568, e presidente da Câmara de Vereadores em 1571.

Orgulhoso de seu êxito, John Shakespeare aspirava ao título de Cavalheiro e solicitou um brasão de armas. Por razões desconhecidas, o pedido foi retirado e, dentro de poucos anos, por razões igualmente obscuras, a fortuna de John Shakespeare entrou em declínio. Em 1570, ele foi acusado de usura por emprestar dinheiro a taxas de 20-25% de juros. Em 1578, ele atrasou o pagamento de seus impostos e não pôde pagar a subscrição obrigatória de assistência aos pobres. Em 1579, teve que hipotecar a propriedade de Mary Shakespeare para pagar seus credores.

Em 1580, foi multado em 40 libras por não comparecer a uma citação judicial. Tornou-se um devedor e frequentemente se ausentava das reuniões do conselho. Em 1586, a cidade o removeu da Câmara de Vereadores por não comparecer. Por volta de 1590, John Shakespeare somente possuía a sua casa na Rua Henley. O pior estava por vir. Em 1592, foi multado por não frequentar a igreja. Este era um assunto sério.

A religião era um assunto central na sociedade para a qual escreveu Shakespeare. A Rainha Elisabeth tornou obrigatório o comparecimento à Igreja da Inglaterra, apesar de que muitos que iam à igreja tivessem que viajar longas distâncias. As pessoas que não compareciam – por alguma razão exceto doença – eram punidas com multas. Alguns chegaram à conclusão de que o pai de Shakespeare – e possivelmente o próprio Shakespeare – devem ter sido católicos clandestinamente. Mas esta é uma suposição injustificada. Sua falta de frequência na igreja pode ter-se devido a razões mais mundanas, por exemplo, o não pagamento de dívidas.

Assim, embora Shakespeare tivesse nascido em uma casa relativamente confortável de classe média, deve ter passado a maior parte de sua infância à sombra das dificuldades financeiras de seu pai. Esta experiência deve ter exercido uma poderosa influência na psicologia do jovem homem. Havendo experimentado da relativa pobreza e das desgraças que a acompanham, desenvolveu um grande tino de negócios que se projetou nos anos posteriores.

Mais tarde, a sorte da família parece haver melhorado. Em 1599, John Shakespeare foi reinstalado no conselho da cidade, mas morreu pouco tempo depois, em 1601. Tinha provavelmente setenta anos de idade e esteve casado durante quarenta e quatro anos. Mary Shakespeare morreu em 1608.

Para resumir, Shakespeare nasceu em uma típica família de classe média no período que Karl Marx descreve com o período da acumulação primitiva do capital. O sistema feudal tinha caído na decadência e uma nova e ascendente classe média, com sua própria agenda e ambições, estava surgindo. John Shakespeare, o self made man que montou um negócio, casou por dinheiro e o perdeu de novo, era a personificação de um novo período da história da Inglaterra e do mundo.

Infância e educação

O jovem William frequentou a escola primária local, a King’s New School, onde sua educação deve ter-se baseado principalmente em retórica, gramática, latim e, possivelmente, grego. Nada sabemos sobre seus anos escolares, mas uma famosa passagem de As You Like It [Do jeito que você gosta] pode nos proporcionar uma pista que nos sugere que a escola não o entusiasmava muito:

“O escolar lamuriento, com sua mochila,

De rosto matinal, como um caracol

Se arrasta para a escola, a contragosto”.

Reflete isto suas próprias lembranças da escola? Sua história posterior sugere que este pode ser de fato o caso.

Na escola ele se familiarizou com a mitologia grega, a comédia romana e a história antiga, que ressurgiram todas em suas peças, que frequentemente estão baseadas em modelos gregos, latinos, franceses e italianos. O resultado é um coquetel excepcionalmente rico de elementos ingleses e não ingleses. Ele frequentemente cita autores romanos, como Plutarco, e usa material da mitologia clássica.

Ao contrário de seu colega dramaturgo Christopher Marlowe, ele não foi à universidade. Ben Jonson, seu famoso contemporâneo, escreveu que ele tinha “pouco latim e ainda menos grego”. Shakespeare aprendeu mais de sua experiência como ator do que de seus estudos formais. Nunca havendo frequentado a universidade, seu conhecimento das pessoas e das circunstâncias derivava da própria vida. Shakespeare escreveu para as massas – para os “groundlings” [espectadores pobres que não podiam pagar por um assento nos três níveis do Globe Theatre, e que só podiam pagar um penny para ficar em locais mais desconfortáveis – NDT].

Parece que ele começou suas atividades literárias como ator ambulante, um dos homens da rainha, e isto teve seu impacto sobre sua forma de escrever peças. Suas peças frequentemente incluem o que, de fato, são direções de cena.

Aos 18 anos de idade, casou-se com Anne Hathaway, uma mulher oito anos mais velha que ele e com três meses de gravidez. Em algum momento Shakespeare se mudou para Londres, deixando sua família em Stratford e se estabeleceu como dramaturgo e ator. Dizem que trabalhou como professor, aprendiz de açougueiro ou secretário de advogado. Seu primeiro biógrafo diz que ele fugiu para Londres a fim de escapar da punição por caçar furtivamente cervos. No entanto, não existe evidência real de suas atividades neste período de sua vida, que é conhecido como “os anos perdidos”.

Dada a escassez de informações precisas a respeito da vida de Shakespeare, a única forma de arrojarmos alguma luz sobre ela e as obras teatrais é colocando-as em seu verdadeiro contexto histórico – algo que conhecemos muito bem. Em 1558, seis anos antes do nascimento de Shakespeare, Elizabeth I se tornou a Rainha da Inglaterra. Durante os seguintes 45 anos, Londres se tornou um próspero centro comercial.

Para lançar mais luz sobre o Bardo de Avon, devemos colocá-lo no contexto do mundo em que nasceu – uma excitante nova era de mudança, agitação e transição na fronteira de dois mundos – o velho mundo do feudalismo, com suas certezas fixas e rígidas hierarquias sociais e religiosas, e um novo mundo que estava lutando para nascer: a era da Revolução burguesa.

Uma era de revolução

“A descoberta da América e a circunavegação da África abriram um novo campo de ação para a burguesia nascente. Os mercados da Índia Oriental e da China, a colonização da América, o comércio colonial, o aumento dos meios de troca e, em geral, das mercadorias, deram ao comércio, à navegação e à indústria um impulso jamais conhecido antes e, em consequência, desenvolveram rapidamente o elemento revolucionário da sociedade feudal em decomposição” (O Manifesto Comunista).

Pode-se dizer o mesmo de Shakespeare. O próprio Shakespeare foi produto da época em que viveu e provavelmente não teria florescido da forma que floresceu em qualquer outro lugar. Ele foi de uma época em que as velhas ideias, tradições e crenças estavam sendo desafiadas, em que as vidas de homens e mulheres e as velhas formas estavam sendo viradas de cabeça para baixo. Foi uma época de transição, de ruptura decisiva com o passado medieval e de início de um novo período histórico; em uma palavra, foi uma era de revolução.

Nas obras de Shakespeare, temos a essência destilada de um povo em um momento de transição de um período histórico a outro. Foi um período marcante da história inglesa. Na sequência de um século de agitação sangrenta conhecido como a Guerra das Rosas, foi este um tempo de relativa estabilidade política sob a nova dinastia reinante, a dinastia Tudor.

A derrota da Armada Espanhola em 1588 estabeleceu a Inglaterra como uma potência militar e comercial líder no cenário mundial. Havia um espírito de aventura e mudança. Francis Drake se tornou o primeiro capitão de barco a completar a circunavegação do globo e Elizabeth proporcionou fundos para as explorações de Sir Walter Raleigh do Novo Mundo. Ele trouxe tabaco e ouro das Américas, trazendo novas riquezas ao seu país e ao seu monarca.

O século XVI foi a era do Renascimento na Inglaterra. Foi uma era de investigação e experimentação. A velha e estéril escolástica da Idade Média foi desafiada por um movimento científico e filosófico revolucionário, que está intimamente associado ao nome de Francis Bacon (1561-1626). Marx o considerava como o primeiro criador do materialismo inglês e ele foi o pai de uma nova forma de aprendizado secular e de uma nova filosofia científica.

Além de seu êxito como centro comercial, Londres também foi um importante centro cultural onde a aprendizagem e a literatura prosperaram. O crescimento econômico criou uma classe média próspera que queria ver novas obras. Shakespeare nasceu no seio da nova classe média, a classe que se orgulhava das liberdades e direitos que visivelmente faltavam a outras pessoas.  

Esta época testemunhou o florescimento do drama na Inglaterra. No final do século, toda uma galáxia de dramaturgos apareceu na Inglaterra: Marlowe, Lyly, Kidd, Greene, Heywood, seguidos mais tarde por Beaumont, Fletcher e Ben Jonson. O florescimento da literatura veio junto com as inovações tecnológicas, em particular com a invenção da imprensa. Caxton montou sua primeira gráfica em 1476, e muito em breve os livros, que eram anteriormente um monopólio de uns poucos ricos, se tornaram acessíveis a um público de massas no seio da nova classe média.

A ascensão da classe média burguesa foi um desenvolvimento revolucionário. O individualismo burguês penetra a arte na forma de retratos e autorretratos – uma forma de arte praticamente desconhecida na Idade Média. E se fez sentir nas obras de Shakespeare na forma do solilóquio. A própria novela é produto da mesma tendência – um novo interesse na psicologia individual, como em Hamlet, em Macbeth, Otelo e Rei Lear. Isto é algo novo no teatro – penetrar na mente do indivíduo e desnudar suas motivações, obsessões e desejos secretos.

O poder do dinheiro

“Onde quer que tenha assumido o poder, a burguesia pôs fim a todas as relações feudais, patriarcais e idílicas. Destruiu impiedosamente os vários laços feudais que ligavam o homem a seus ‘superiores naturais’, deixando subsistir como única forma de vínculo de homem a homem, o laço do frio interesse, as duras exigências do ‘pagamento à vista’. Afogou os fervores sagrados do êxtase religioso, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. Fez da dignidade pessoal um simples valor-de-troca e, no lugar das numerosas e indescritíveis liberdades conquistadas, estabeleceu uma única e implacável liberdade: a liberdade do comércio. Em outras palavras, substituiu a exploração encoberta pelas ilusões religiosas e políticas pela exploração aberta, cínica, direta e brutal” (O Manifesto Comunista).

“Se o dinheiro vai na frente, todos os caminhos se abrem” (Ford, As Alegres Comadres de Windsor, Ato 2, Cena II).

Esta explosão de arte, ciência e literatura foi a expressão de mudanças fundamentais na vida econômica e social da sociedade: a decadência da velha sociedade feudal e a ascensão da burguesia; a emergência de uma economia baseada no dinheiro e no comércio em vez do sistema feudal baseado na posse da terra.

O século XVI viu a ascensão de um novo tipo de economia baseado no comércio e no dinheiro. Em contraste, a riqueza da Idade Média se baseava na propriedade da terra. A igreja considerava a usura como pecado mortal e os cristãos foram proibidos de emprestar dinheiro a juro. Este papel era geralmente desempenhado pelos judeus, a principal explicação para o surgimento do antissemitismo naquele tempo.

No Mercador de Veneza, Shakespeare retrata em termos negativos Shylock, o agiota judeu que notoriamente exigia uma libra de carne de sua vítima cristã, incapaz de pagar suas dívidas. Vemos aqui se expressar de forma extrema a relação real entre credores e devedores que já existia, de uma forma ou de outra, desde os tempos antigos. A conduta dos banqueiros da União Europeia com relação à Grécia é apenas a continuação desta antiga e venerável tradição.

Isto expressa graficamente a recém-conquistada importância do dinheiro como força vital do comércio e como a base de toda a vida econômica. Não é acidental que em seus Manuscritos Filosóficos de 1844 Marx cita o Timon de Atenas de Shakespeare para sublinhar o poder do dinheiro na sociedade burguesa:

“Que é isto? Ouro? Ouro amarelo, brilhante, precioso? Não, deuses: não faço protestos vãos. Raízes quero, ó céus azuis! Um pouco disto tornaria o preto, branco; o feio, belo; o injusto, justo; o vil, nobre; o velho, novo; o covarde, valente. Mas, ó deuses, por que isto? O que é isto, deuses? Isto fará com que vossos sacerdotes e vossos servos se afastem de vós; isto fará arrancar o travesseiro de debaixo das cabeças dos homens fortes. Este escravo amarelo fará e desfará religiões; abençoará os réprobos; fará prestar culto à alvacenta lepra; assentará ladrões, dando-lhes títulos, genuflexões e aplausos, no mesmo banco em que se assentam os senadores; isto é que faz com a inconsolável viúva contraia novas núpcias; e com que aquela, que as úlceras purulentas e os hospitais tornavam repugnantes, fique outra vez perfumada e apetecível com um dia de abril. Anda cá, terra maldita, meretriz, comum a toda a espécie humana, que semeia a desigualdade na turba-malta das nações, vou devolver-te a tua verdadeira natureza”

(Timão de Atenas, Ato 4, Cena III).

E Marx explica seu significado mais íntimo: “Shakespeare apresenta duas propriedades do dinheiro em particular: (1) é a divindade visível, a transformação de todas as qualidades humanas e naturais em seu oposto, a confusão universal e a inversão das coisas, que reúne impossibilidades. (2) Ele é a prostituta universal, o alcoviteiro universal de homens e povos”.

Esta profunda observação vai ao cerne da natureza do capitalismo, e é ainda mais verdadeira agora do que quando foi escrita. O verdadeiro Deus da moderna sociedade não é Jeová, Maomé ou Buda, mas Mamon. Os verdadeiros templos não são as catedrais nem as mesquitas, mas os bancos e as bolsas de valores. Seus altos sacerdotes são os banqueiros, os corretores de bolsa e os proprietários de bônus. E ainda vivem exigindo sua libra de carne. O verdadeiro espírito do Capital resume-se em Shylock.

Esta é a voz do capitalismo falando em seu tom mais cru e, portanto, mais sincero. Deve-se abrir caminho à expansão do capitalismo sem qualquer restrição ou impedimento que seja. A relação entre seres humanos é reduzida ao nexo sem disfarces do dinheiro. Considerações sentimentais, a amizade, a moralidade ou a religião não fazem parte dele. É por essa razão que é preferível não emprestar dinheiro a um amigo, e sim a um inimigo, que deve sofrer as consequências da inadimplência.

Esta é a verdadeira natureza do capitalismo, despojada de qualquer pretensão de humanidade ou moralidade. A imagem não é lisonjeira, mas é totalmente fiel à vida. Shylock é a personificação do Capital – sua essência destilada. Sua aversão a Antonio não se baseia tanto na religião, mas no fato de que ele viola o princípio mais fundamental do capitalismo – a inviolabilidade do lucro. Antonio representa a velha moralidade do mundo, um vestígio do período em que se supunha que as barreiras da amizade e da honra eram a regra suprema:

Ainda agora pudera novamente dar-te o nome de cão, de minha porta tocar-te a pontapés, cuspir-te o rosto. Se queres emprestar-nos teu dinheiro, não o faças como a amigos – em que tempo a amizade cobrou do amigo juros de um metal infecundo? Antes o empresta como a teu inimigo, pois no caso de vir ele a faltar com o pagamento, com mais alegre rosto hás de extorquir-lhe tudo o que te dever.

 (Antonio, O Mercador de Veneza, Ato 1, Cena III).

Por outro lado, Shylock representa a nova moralidade capitalista, que coloca a busca do lucro antes de todas as outras considerações. O crime mais hediondo de Antonio, do ponto de vista de Shylock, não era porque ele adorava a Santíssima Trindade, mas porque emprestava dinheiro sem exigir juros, violando assim o Santo dos Santos do capitalismo:

Como parece o falso publicano! Por ele ser cristão é que o odeio, mas, acima de tudo, porque em simplicidade vil, dinheiro empresta gratuitamente e faz baixar a taxa de juros entre nós aqui em Veneza. Se em falta alguma vez puder pegá-lo, saciado deixarei meu antigo ódio. Nossa nação sagrada ele detesta, e, até mesmo no ponto em que costumam reunir-se os mercadores, ele insulta-me, meus negócios condena e o honesto lucro que de interesse chama. Amaldiçoada minha tribo se torne, se o perdoar.

(O Mercador de Veneza, Ato 1, Cena III)

Algumas pessoas tentam encontrar antissemitismo nesta peça, e é fato que Shakespeare não estava plenamente livre dos preconceitos de seu tempo. No entanto, como Marx entendeu, a essência de Shylock não está em sua raça, nacionalidade ou religião, mas em sua vocação de emprestador de dinheiro, a personificação do capitalismo em sua etapa de formação da acumulação primitiva, ou seja, em sua mais pura e quimicamente destilada essência.

Como se estivesse refutando antecipadamente a acusação de antissemitismo, Shakespeare coloca na boca de Shylock o discurso mais eloquente e comovente de protesto:

Por eu ser judeu. Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos?

(Shylock, O Mercador de Veneza, ato 3, cena I)

O capital não reconhece raça ou religião. Não tem pátria nem reconhece qualquer fronteira. Não tem alma ou coração, nem reconhece o certo ou o errado. No entanto, este deus cego, mais impiedoso do que qualquer ídolo pagão, subjuga toda a raça humana e a obriga a fazer sua vontade. Essa é a verdadeira mensagem da obra de Shakespeare, e continua a ser uma mensagem fiel para os nossos próprios tempos.

A acumulação primitiva

Pois o mesmo farei, enquanto pobre: não há pecado como o da riqueza, direi então; mas quando ficar rico, direi ser a miséria o único vício.

(O bastardo, Vida e Morte do Rei João, Ato 2, Cena I).

O capitalismo se desenvolveu na Inglaterra um pouco mais tarde que nas cidades do Norte da Itália, mas, uma vez instalado, se desenvolveu rapidamente. Este foi o período que Marx descreve como o período da acumulação primitiva. Os monarcas Tudor atuaram como uma agência da nascente classe dos capitalistas ingleses. Elizabeth emprestou seu apoio à nova classe manufatureira e comercial que proporcionou a riqueza que sustentou a dinastia governante e assegurou sua sobrevivência em um mundo ameaçador. Mas este progresso econômico veio com um alto custo social.

As convulsões sociais que surgiram dessas grandes mudanças representavam as terríveis dificuldades das massas. Marx as descreve em O Capital, na seção sobre a acumulação primitiva:

“Marcam época, na história da acumulação primitiva, todas as transformações que servem de alavanca à classe capitalista em formação, sobretudo aqueles deslocamentos de grandes massas humanas, súbita e violentamente privadas de seus meios de subsistência e lançadas no mercado de trabalho como levas de proletários destituídos de direitos. A expropriação do produtor rural, do camponês, que fica assim privado de suas terras, constitui a base de todo o processo” (Karl Marx, O Capital, Livro 1, vol. 2, p. 831).

A principal indústria em crescimento era a da lã, que constituía três quartos das exportações inglesas. O aumento constante da demanda por lã promoveu o crescimento da criação de ovinos. Mas como esta emprega poucos trabalhadores, um grande número da população rural se encontrou sem emprego. As fazendas que antes produziam colheitas foram transformadas em terras de pastagem para as ovelhas. Thomas Morus amargamente registra isto em sua famosa obra Utopia, “as ovelhas estão comendo as pessoas”.

Foi um período de leis brutais contra “mendigos” e “vagabundos”, ou seja, a grande quantidade de camponeses que foram expulsos da terra, deslocados pelos novos métodos da agricultura capitalista. Neste período, como observou Marx, um grande setor da população inglesa foi criminalizado, perseguido, açoitado e condenado à morte pelo crime de ser pobre. Durante o reinado de Henrique VIII, não menos de 72 mil “ladrões” foram sentenciados à morte. Os salários foram limitados pela lei. Os problemas enfrentados pelas massas empobrecidas exacerbaram com a dissolução dos monastérios, que lançou milhares de monges e monjas nas fileiras dos desempregados, e com a dissolução dos séquitos feudais da nobreza.

Marx descreve as leis selvagens decretadas contra os pobres no reinado de Elizabeth: “Mendigos sem licença e com mais de 14 anos serão flagelados severamente e terão suas orelhas marcadas a ferro, se ninguém quiser tomá-los a serviço por dois anos; em caso de reincidência, se têm mais de 18 anos, serão enforcados, se ninguém quiser tomá-los a serviço por dois anos; na terceira vez serão enforcados, sem misericórdia, como traidores. Leis análogas: a no 13, do ano 18 do reinado de Elizabeth e a do ano de 1597” (O Capital, Livro 1, vol. 2, p. 853).

No entanto, este é apenas um dos lados da moeda. Apesar de seu caráter opressivo e explorador, o nascente sistema capitalista levou a um desenvolvimento explosivo das forças produtivas. Apesar da pobreza e dos danos sofridos por muitas pessoas, e das terríveis doenças que assolaram a Inglaterra durante os séculos XVI e XVII, a população aumentou.

Londres era agora um movimentado centro comercial, manipulando 85% de todas as exportações. Todos os anos cerca de 10 mil cidadãos migravam para Londres, acreditando que as ruas eram pavimentadas a ouro como em um conto de fadas. Ruas de ouro não havia, mas os salários em Londres eram cerca de 50% maiores do que em outras partes do país. Latifundiários e comerciantes ricos construíram palacetes com jardins e pomares. A classe média prosperava e até mesmo alguns das classes mais baixas tinham dinheiro suficiente para ir ao teatro.

Caravaggio e Monteverdi trabalhavam para mecenas ricos que pagavam as contas. Mas Shakespeare era apenas parcialmente dependente de tais mecenas. A ascensão da burguesia criou um novo público de classe média que ia ao teatro e pagava a entrada. De forma crescente, Shakespeare escrevia para este público.

[continuará]


Artigo publicado originalmente em 9 de setembro de 2016, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “400 Years since the Death of Shakespeare: A Revolutionary in Literature – Part one“.

Tradução Fabiano Leite.

Deixe seu comentário

Leia também...

Uma análise sobre a assembleia do SATED e de seu processo eleitoral

Para que deve servir um sindicato de artistas e técnicos de espetáculos? No dia 4 …