29 anos sem Elis Regina

Nossa homenagem à cantora Elis Regina, artista de grandioso talento que se contrapôs à ditadura militar e se filiou em 1981 ao Partido dos Trabalhadores. No dia 19 de janeiro de 1982, Elis falecia com apenas 36 anos nos deixando seu exemplo e inspiração.

Elis Regina Carvalho Costa nasceu na cidade de Porto Alegre (Rio Grande do Sul), em 17 de março de 1945. Começou cedo na carreira de cantora, com apenas 11 anos de idade, em um programa de rádio chamado O Clube do Guri. Lançou seu primeiro LP aos 16 anos. Em 1965 ganhou o prêmio Berimbau de Ouro no I Festival da Música Popular Brasileira com a música Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Morais. Esses são os primeiros passos da “Pimentinha”, apelido dado por Vinícius.

Seu talento precoce foi lapidado por muitas experiências nacionais e internacionais, parcerias memoráveis (Jair Rodrigues, Tom Jobim, Adoniram Barbosa, Chico Buarque, Hermeto Pascoal, etc.) e, é claro, dedicação ao trabalho – ela era conhecida por seu perfeccionismo na profissão. Como diz o ditado, a arte é feita com 1% de inspiração e 99% de transpiração. Elis alcançou uma técnica e um domínio vocal admirável, emocionando, fazendo rir, chorar, inspirando seu público com interpretações carregadas de sentimento.

O tempo fez também com que sua consciência política amadurecesse. Elis Regina costumava dizer que: “Pelo simples fato de já estar nascendo, você está fazendo política”. Dona de declarações cheias de acidez, combateu pelo fim da ditadura militar e pela anistia.

Em 1978 ela recusou convite de realizar show em Buenos Aires, na Argentina, pois a ditadura do país censurou seu disco Falso Brilhante que tinha a canção Gracias a la vida, de Violeta Parra. Em 1979, participou do Show de Maio, com renda revertida para o fundo de greve dos metalúrgicos do ABC. Além de Elis, participaram do show: João Bosco, Macalé, Gonzaguinha, Dominguinhos, Maria Martha, Fagner e Carimbos Vergueiro. No mesmo ano gravou a canção O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, que ficou conhecida como o Hino da Anistia. É também dela a gravação de maior sucesso da canção O Mestre-Sala dos Mares dos mesmos compositores, que conta a saga de João Cândido e a história da Revolta da Chibata. E são muitas as canções que traziam reflexões e críticas contundentes à falta de liberdade e de democracia, que traziam a vontade e necessidade de construir um mundo melhor. Vale destacar a canção que se tornou emblemática em 1968, O que foi feito deverá, de Milton Nascimento, que também fez grande sucesso na voz de Elis – um trecho da letra diz que “Outros Outubros virão”.

Na greve dos metalúrgicos do ABC de 1980 ela doou 180 mil cruzeiros e organizou um jantar entre amigos para arrecadar dinheiro para o fundo de greve. Em 1981, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores, atitude que demonstra sua convicção política, aderindo a um partido que nascia duramente combatido pela direita e pelos falsos amigos da “esquerda”.

Foi também uma defensora de sua categoria, ajudou a criar e foi presidente da ASSIM, Associação de Intérpretes e Músicos, que conseguiu reconhecer os direitos autorais, chamados de direitos conexos, dos músicos intérpretes das músicas gravadas, aqueles que não são os compositores das músicas. Combateu também a Ordem dos Músicos do Brasil (OMB). É deliciosa a resposta cheia de ironia que ela dá ao então presidente da OMB, Wilson Sandoli, em uma entrevista que pode ser conferida no Youtube, clicando aqui.

No dia 19 de janeiro de 1982, há 29 anos, morria Elis Regina. Os legistas afirmaram que a causa da morte foi uma overdose de cocaína com álcool. Nesse episódio trágico as drogas confirmaram mais uma vez seu poder destrutivo, encerrando precocemente um talento que tinha muito ainda por viver e encantar, uma artista que cada vez mais estava comprometida com as lutas da classe trabalhadora.

Elis merece ser conhecida por aqueles que nunca ouviram sua doce voz, apreciada muitas vezes por aqueles que já a admiram, e guardada com carinho no coração da classe operária como a companheira que esteve lado a lado em lutas fundamentais do proletariado brasileiro. Para encerrar, nada melhor do que ouvir Elis Regina:

O Bêbado e a Equilibrista
Elis Regina
Composição: João Bosco e Aldir blanc

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos…

A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!…

Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarices
No solo do Brasil…

Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente

A esperança…
Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar…

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar…

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