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Donald Trump. Foto: Socialist Appeal

2018: o mundo virado de cabeça para baixo – Perspectivas Mundiais

Donald Trump saudou o Ano Novo em sua própria e inimitável forma: cercado por seu clã social e político no ambiente opulento de seu clube exclusivo Mar-a-Lago, na Flórida, acompanhado por um representativo grupo de todos os segmentos da sociedade estadunidense – de estrelas de cinema a bilionários.

“Será um fantástico 2018”, assegurou Trump aos seus convidados, quando ingressou no salão de baile de Mar-a-Lago, acompanhado pelo sorriso congelado da primeira-dama Melania Trump e pelo manequim de alfaiate que passa por seu filho Barron, e previu que o mercado de ações continuaria crescendo e que os negócios viriam para os EUA de “forma rápida”.

Tudo isso era música nos ouvidos de seus convidados endinheirados que estão babando com a perspectiva de lucros suculentos e com os cortes de impostos que o seu herói tão generosamente prometeu realizar. Foi uma cena verdadeiramente inesquecível que mereceria participar do filme O Poderoso Chefão.

2017

Entretanto, antes de saudarmos o nascimento do Ano Novo primeiro temos o dever de enterrar o Ano Velho, depois de realizar uma autópsia rigorosa em seu cadáver. “Penso que este ano é provavelmente o maior ano de risco político desde o final da 2ª Guerra Mundial”, declarou Brian Klass, scholar em Política Comparada da London School of Economics, ao ser entrevistado pela CNBC, em janeiro do ano passado.

Ele não ficou longe da marca. Basta pensarmos brevemente no tipo de perturbações que ocorreram nos últimos 12 meses. O ano que acaba de passar para a história viu, até agora, outras séries de terremotos políticos. E, apesar dos grasnidos confiantes do atual ocupante da Casa Branca, é muito pouco provável que o ano de 2018 será mais fácil para o capitalismo mundial.

Trotsky uma vez descreveu a teoria como a superioridade da previsão sobre o espanto. Mas o ano de 2017 viu uma grande quantidade de espantos, e não menos entre os supostos experts da burguesia. Há 12 meses, quem poderia imaginar que os Conservadores britânicos iriam tão mal em uma eleição geral, na qual entraram com 20 pontos de liderança sobre o Trabalhismo; e que o “inelegível” Jeremy Corbyn terminaria o ano como o político mais popular na Grã-Bretanha?

Quem poderia imaginar que, no final do ano, os líderes da campanha catalã pela independência estariam disputando uma eleição enquanto se encontravam em uma prisão espanhola e que o presidente do governo catalão estaria no exílio político em Bruxelas?

Quem poderia imaginar que os dois principais partidos da França sequer estariam presentes no segundo turno da eleição presidencial? E quem poderia imaginar que os Republicanos dos EUA perderiam uma eleição no Alabama: uma segura fortaleza da direita conservadora e religiosa?

Quem poderia imaginar que Mugabe seria varrido para a lata de lixo depois de décadas de governo ditatorial e que Jacob Zuma perderia o controle do ANC?

Estes são apenas alguns dos terremotos políticos que sacudiram o mundo em somente 12 meses. São eventos altamente significativos por si mesmos. Mas, de uma perspectiva marxista, são sintomas da crise geral do capitalismo mundial, que encontra sua expressão na instabilidade política em todos os lugares, incluindo a nação capitalista mais poderosa: os Estados Unidos da América.

Pessimismo da burguesia

Os estrategistas sérios do capital frequentemente chegam às mesmas conclusões dos marxistas, embora, naturalmente, a partir de seu próprio ponto de vista de classe. A imagem rósea pintada por Mr. Trump não é compartilhada por qualquer analista burguês sério – de fato, pelo contrário.

O Eurasia Group, uma consultora respeitada que aconselha os capitalistas sobre possíveis riscos em escala mundial, em sua avaliação anual, recentemente publicada, dos principais riscos geopolíticos, adverte que o mundo está se movendo para uma crise e para uma situação de “depressão geopolítica”, e que a própria presidência de Donald Trump está contribuindo para a instabilidade ao acelerar as divisões em termos nacionais e internacionais, e desmembrando a ordem global dolorosamente construída durante um período de décadas.

O Eurasia Group expressa o temor de que as democracias liberais (isto é, burguesas) estão sofrendo de um “déficit de legitimidade nunca vista desde a 2ª Guerra Mundial”, que os líderes estão desconectados da realidade e que essa crise política cria as condições para que qualquer evento mais importante tenha um efeito devastador sobre a economia e o mercado globais.

Eleição de Donald Trump alarmou a burguesia. Foto: Flickr, Gage Skidmore

O informe começa com uma frase que pode ser vista como uma resposta à avaliação entusiástica da economia por parte de Mr. Trump (apesar de ter sido escrita antes de sua festa de Ano Novo): “Sim, os mercados estão subindo e a economia não vai mal, mas os cidadãos estão divididos. Os governos não estão governando muito. E a ordem global está se desfazendo”.

E sua conclusão não poderia ser mais diferente daquela do Homem da Casa Branca: “Nos 20 anos desde que começamos o Eurasia Group, o ambiente global teve seus altos e baixos. Mas se tivéssemos que escolher um ano para uma grande e inesperada crise – o equivalente geopolítico da crise financeira de 2008 – este ano parece ser 2018”.

O fator Trump

2017 começou com a ascensão de Donald Trump ao poder em 20 de janeiro. Isto por si só já foi um choque político de dimensões tremendas. Naturalmente, é incorreto atribuir todos os males do mundo a um só homem. Se isso fosse verdade, então a solução para a crise atual seria de fato simples: livrar-se de Trump e substituí-lo por outro presidente mais “responsável” (isto é, Democrata). Mas não há nenhuma razão para se acreditar que a situação estaria melhor sob Hillary Clinton ou qualquer outro dos heróis do “centro”.

A tentativa de explicar os grandes processos históricos em termos do indivíduo é uma banalização da história que não resiste até mesmo ao exame mais superficial. O marxismo busca os fundamentos da história humana nos processos mais profundos que se desdobram bem abaixo da superfície e que constituem o quadro fundamental dentro do qual os atores humanos desempenham os seus papéis. Mas essa análise básica, embora decisiva em última análise, de forma alguma esgota a questão.

Donald Trump: “um elefante em uma loja de porcelana”. Foto: Casa Branca

Se a tentativa de explicar a história em termos de protagonismo individual é muito simples para ser levada a sério, a tentativa de negar o papel dos indivíduos na história é, igualmente, simplista e falsa. Marx explica que os homens e as mulheres fazem sua própria história, embora não atuem com total liberdade e sejam limitados pelos fatores objetivos que se encontram além de seu controle e que mesmo são invisíveis para eles. Por suas ações, os atores individuais podem produzir sérios efeitos sobre as circunstâncias, influenciando o resultado dos eventos de uma forma ou de outra.

Donald Trump é um interessante exemplo desse fenômeno. A classe dominante nos EUA não está feliz com Trump. Continua infeliz e está tentando se livrar dele. Há uma série de razões para isso. Durante 100 anos a vida política dos EUA esteve baseada em dois pilares fundamentais: os Republicanos e os Democratas. A estabilidade do sistema dependia desse equilíbrio.

Trump é um multibilionário, mas também é um ególatra e um demagogo hábil. Paradoxalmente, Trump apelou especificamente aos grupos mais pobres. Falou muito sobre a classe trabalhadora – algo praticamente inédito nas campanhas eleitorais dos EUA. Naturalmente era tudo mentira, mas quando falou sobre as fábricas e as minas fechadas, despertou a esperança nas mentes de pessoas desesperadas. Isso tocou a fibra sensível de milhões de estadunidenses que estavam fartos do sistema que os condena à pobreza e ao desemprego.

Na realidade, Trump é apenas outro representante das grandes empresas. De fato, ele é o verdadeiro rosto, grosseiro e feio, do capitalismo, enquanto o chamado centro é o capitalismo que tenta disfarçar sua essência por trás de uma máscara sorridente. Trump descartou a máscara e é por isso que o establishment o detesta.

O establishment se questionou se poderia controlar esse dissidente bilionário, cuja vitória não desejava, mas que foi incapaz de evitar. Não teve que se questionar durante muito tempo. O 45o presidente dos EUA teve pressa para deixar sua marca. Ele fez campanha com a promessa de “fazer as coisas de forma diferente”. E cumpriu sua palavra.

Ele conseguiu exacerbar todas as contradições em escala mundial: entre os EUA e a China, entre os EUA e a Europa e entre os EUA, o Canadá e o México. Ele intensificou o conflito entre Israel e os Palestinos e criou uma atmosfera frenética com a Coreia do Norte que transformou a Coreia do Sul e o Japão em alvos para o arsenal nuclear do “Homem Foguete” de Pyongyang.

As aventuras de Trump no campo dos assuntos externos são, certamente, sem precedentes na história da diplomacia mundial. Ele não se parece a um touro em uma loja de porcelana, parece mais a um elefante. Sua enxurrada de tuites ultrajantes proporciona uma ruidosa música de fundo à cacofonia dos erros extravagantes, contraditórios e frequentemente incompreensíveis da política externa, que chocaram e consternaram grandes setores do establishment no país e no exterior.

A doutrina de America First [Primeiro a América] é somente uma nova versão do velho isolacionismo que sempre fez parte da tradição política estadunidense. Mas os aliados mais próximos dos EUA estão preocupados com o fato de que, quando ele promete “tornar a América grande novamente”, ele a quer tornar grande às suas custas. E não estão equivocados. Se antes já havia rachaduras na chamada aliança ocidental, elas agora se alargaram com um enorme abismo.

Os diretores responsáveis de Eurasia Group, Ian Bremmer e Cliff Kupchan, advertem que o poder global dos EUA está “chegando a um ponto morto” e que a filosofia de Trump de cerceamento e unilateralismo espalha a confusão entre aliados e rivais. Eurasia Group afirma: “’America First’ e as políticas que dela fluem erodiram a ordem liderada pelos EUA e seus trilhos de segurança, enquanto nenhum outro país, ou conjunto de países, está preparado ou interessado em reconstruí-la… aumentando significativamente o risco global”. É um bom resumo da situação.

Radicalização nos EUA

Estas são realizações realmente notáveis para meros 12 meses na Casa Branca. A irrupção de Trump no cenário mundial seria suficiente para causar sérias preocupações ao establishment estadunidense e internacional. Mas há outra razão para a classe dominante não se mostrar entusiasmada com Donald Trump. A mecânica elementar nos ensina que, para cada ação, há uma reação igual e contrária. As linhas de falha na sociedade e na política estadunidense já estavam ali. Não foram inventadas por Mr. Trump. Mas, por suas palavras e ações, ele intensificou as aguçadas divisões na sociedade estadunidense e provocou um notável aumento da radicalização.

A chegada de Trump à Casa Branca foi o sinal para uma onda sem precedentes de manifestações de massas por todo o país. As marchas das mulheres provavelmente representaram o maior dia de protestos na história dos EUA. Entre 3,3 milhões e 4,6 milhões de pessoas marcharam em Los Angeles, Washington DC, Nova Iorque, Chicago, Seattle e em outras cidades estadunidenses. Foi o tipo de coisas que estavam por vir.

A Marcha das Mulheres seguindo a eleição de Trump foi o maior protesto de um único dia na história dos EUA. Foto: Domínio Público

O ano terminou com uma assombrosa derrota no Alabama: uma fortaleza conservadora e fortemente Republicana que Trump ganhou com uma vantagem de 30% nas eleições presidenciais. Este foi outro terremoto político e um terremoto que não foi previsto pelos “experts” ou pelas pesquisas de opinião.

É demasiado cedo para se dizer quanto tempo Trump pode sobreviver. Sua base de apoio mais importante encontra-se na bancarrota dos Democratas e na demora de um movimento significativo da classe trabalhadora. A atual administração pode se prolongar, apesar do espetáculo sem precedentes de uma divisão aberta na classe dominante. Quando, no passado, vimos um conflito aberto entre um presidente estadunidense e os meios de comunicação de massa, o FBI, a CIA e todos os órgãos dos Serviços de Inteligência estadunidenses?

Apesar das previsões confiantes de Mr. Trump, o ano de 2018 verá muitas outras desordens desse tipo, que, no fundo, são reflexos da instabilidade, que é uma característica fundamental do período atual de crise capitalista mundial.

França e Grã-Bretanha

Para os marxistas o significado dessas perturbações políticas não é difícil de entender. A crise do capitalismo se manifesta em instabilidade geral – econômica, social e política. Dez anos após o colapso financeiro de 2008, a burguesia está longe de resolver a crise econômica. Todas as tentativas dos governos para restaurar o equilíbrio econômico só serviram para destruir o equilíbrio social e político.

Vemos isto em um país após outro. Tanto Trump quanto Bernie Sanders, embora sejam muito diferentes, são manifestações do mesmo fenômeno. Também o são Jeremy Corbyn, Mélenchon na França, Syriza na Grécia e Podemos na Espanha. Todos são reflexos do descontentamento, da raiva e da frustração geral que se agitam sob a superfície da sociedade. Isso está causando um sério alarme nas fileiras da burguesia e seus estrategistas.

A burguesia depositou suas esperanças no candidato de “centro” Emmanuel Macron. Foto: Kremlin Ru

O surgimento de um “sentimento anti-establishment cada vez mais acentuado” está erodindo a confiança nas instituições políticas dos países democráticos, bem como na mídia e no sistema eleitoral dos EUA. A debilidade dessas instituições pode levar à instabilidade, ao autoritarismo e às políticas e conflitos imprevistos.

O que estamos vendo nos EUA e em todas as partes é o colapso do centro. O pequeno grupo não-representativo das elites que detêm o poder não está naturalmente feliz com isso. Eles corretamente veêm a crescente polarização à esquerda e à direita como uma ameaça aos seus interesses.

Ficaram, portanto, compreensivelmente encantados em maio, quando um pouco conhecido candidato do “centro”, Emmanuel Macron, derrotou Marine Le Pen para se tornar o mais jovem presidente da França. Nenhum dos partidos tradicionais chegou ao segundo turno. A mídia fez muito barulho sobre isto. Alegaram que Macron havia ganho uma maioria absoluta. Isso não é verdade. A maioria absoluta de fato foram os 70% das pessoas que não votaram por ele. Nem a mídia deu atenção ao fato de que o político mais popular da França é o líder de esquerda Jean-Luc Mélenchon.

O candidato de esquerda Jean-Luc Mélechon foi o político mais popular na França. Foto: Domínio Público

Na realidade o centro político é uma ficção. A sociedade está cada vez mais dividida entre um pequeno grupo de pessoas que controla o sistema e a esmagadora maioria que está ficando mais pobre e em rebelião aberta contra o sistema. “Capturar o centro do terreno” era uma ideia de Tony Blair (o fundador do “Novo Trabalhismo” e primeiro-ministro britânico de 1997 a 2007).

A ideia é infantilmente simples: tentar encontrar um acordo entre partidos baseados em classes diferentes. Mas há um pequeno problema. Tal acordo é impossível, porque os interesses dessas classes são completamente antagônicos – de fato, incompatíveis. Esse antagonismo pode ser temporariamente disfarçado nos períodos de auge econômico, mas se torna notavelmente óbvio nas situações como a atual, quando o capitalismo se encontra em crise profunda.

A votação de junho de 2016 pelo Brexit foi um salto da Grã-Bretanha à obscuridade. Esse foi outro terremoto político, cujos resultados apenas começam a aparecer. Numa tentativa desesperada para reforçar a débil posição britânica nas negociações da Primavera passada, Theresa May convocou eleições antecipadas. Essa decisão foi tomada no pressuposto (compartilhado por todos e por seu tio) de que os Conservadores não poderiam perder.

As pesquisas de opinião davam aos Tories uma vantagem de 20 pontos percentuais sobre o Partido Trabalhista. Toda a mídia era unânime que, sob a liderança do esquerdista Jeremy Corbyn, o Partido Trabalhista nunca ganharia uma eleição. Lembremo-nos de que a direita do Partido Trabalhista, que tem uma maioria esmagadora no grupo parlamentar do Partido Trabalhista, tentou se livrar de Corbyn de todas as formas possíveis durante os últimos dois anos com o apoio da mídia, que organizou uma campanha sem precedentes de demonização contra o líder trabalhista.

Outro candidato de esquerda, Jeremy Corbyn retirou dos Tories sua maioria parlamentar. Foto: Flickr, Garry Knight

Seus esforços fracassaram. Mas estavam se preparando mais uma vez para expulsá-lo assim que a derrota do Partido Trabalhista, que desejavam fervorosa e confiantemente, fosse anunciada. Mas, para assombro geral, o Partido Trabalhista lutou na eleição com um programa de esquerda e avançou. O Partido Conservador perdeu sua maioria parlamentar e o supostamente inelegível Jeremy Corbyn se tornou o político mais popular da Grã-Bretanha.

Pouco tempo atrás, a Grã-Bretanha era um dos países mais estáveis da Europa. Agora, é um dos mais instáveis. O resultado do Brexit e a fermentação na Escócia foram, ambos, sintomas de profundo descontentamento, que já existia, mas que não encontrava meios de expressão. Na pessoa de Jeremy Corbyn esse descontentamento em massa encontrou uma expressão política que representa uma grande virada à esquerda, o que apresenta grandes oportunidades para a seção britânica da CMI que entendeu sozinha esse fenômeno, que todas as seitas pseudo-trotskystas negaram durante décadas.

Catalunha

A crise na Catalunha é um reflexo do impasse do capitalismo espanhol e a consequência das traições do estalinismo e do reformismo que levaram ao aborto da Constituição de 1978. A traição permitiu à putrefada classe dominante espanhola preservar partes importantes do velho regime franquista por trás de uma fachada democrática.

Agora, 40 anos depois, os abutres estão de volta. O povo da Catalunha experimentou a realidade da democracia espanhola quando os golpes dos cassetetes da polícia caíram sobre as cabeças de cidadãos desarmados e indefesos – homens e mulheres, jovens e velhos – cujo único “crime” foi o desejo de votar sobre o futuro de seu país.

Os líderes desse movimento fizeram o seu melhor para persuadir ao governo de direita de Rajoy, em Madri, de que eles, naturalmente, não falavam sério sobre a independência, em absoluto. Eles “proclamaram” uma Catalunha independente, mas também declararam que ela “não seria implementada”. Comportaram-se como generais que mobilizam um exército, colocam-no em pé de guerra, provocam o inimigo a entrar em ação e, em seguida, levantam a bandeira branca. Não se pode imaginar uma forma mais segura de desmoralizar as tropas.

Mas, se os líderes catalães imaginavam que esta manobra os salvaria da ira de seus inimigos, estavam seriamente enganados. A fraqueza convida a agressão. As forças de Madri prenderam os principais líderes do movimento de independência, que foram aprisionados acusados de planejar uma insurreição, aboliram os poderes do governo catalão autônomo e impuseram um governo direto para esmagar o movimento pela independência. O presidente catalão, Carles Puigdemont, fugiu para o exílio na Bélgica.

Carles Puigdemont está no exílio em Bruxelas.

Os nacionalistas burgueses catalães tolamente imaginaram que receberiam o apoio da União Europeia, mas logo ficaram curados dessa ilusão. Bruxelas e Berlim os informaram nos termos mais inequívocos que um estado catalão independente não seria reconhecido pela Europa. Foram até aqui as credenciais democráticas dos líderes da União Europeia!

Se o PP, o partido governante, pensou que resolveria o problema com o uso da força bruta, também estava equivocado. Marx explicou que a revolução necessita do chicote da contrarrevolução. No sábado, 21 de outubro, 450.000 pessoas marcharam em Barcelona, enquanto dezenas de milhares se reuniram em outras cidades da Catalunha, para exigir a liberdade dos líderes encarcerados.

A eleição de 21 de dezembro representou um tapa na cara do governo espanhol. Essas eleições ocorreram em condições excepcionais, começando com o fato de que foram convocadas pelo governo espanhol depois de demitir o governo catalão e dissolver o parlamento catalão. Oito proeminentes candidatos dos partidos pró-independência estão ou presos ou no exílio e, dessa forma, foram impedidos de tomar parte da campanha. Chegaram a ser castigados pelas autoridades da prisão pelo envio de mensagens, que eram lidas ou distribuídas durante as reuniões eleitorais. Tudo isso foi feito usando-se os poderes decorrentes do Artigo 155 da Constituição de 1978;

Milhares de catalães tomam as ruas exigindo independência. Imagem: Uso livre

Apesar de tudo isso, a participação de 81,94% foi a mais alta, não só para as eleições parlamentares catalães, como também para as eleições parlamentares espanholas na Catalunha e em toda a Espanha. O partido dominante espanhol, o PP, ficou reduzido a três assentos na Catalunha e o bloco pró-independência ganhou mais uma vez a maioria geral no Parlamento Catalão. Estamos, portanto, exatamente na mesma situação de antes.

O que quer que aconteça nos próximos meses, nada voltará a ser o mesmo na Catalunha ou na Espanha. Foram desencadeadas forças que despedaçarão o falso e hipócrita “consenso” que iludiu o povo sobre uma genuína alternativa democrática à odiada ditadura de Franco. Rajoy e o PP são os legítimos herdeiros daquele regime, que pisoteou brutalmente as pessoas no passado e as continua pisoteando hoje.

O PP de Mariano Rajoy representa a continuação de grande parte do regime de Franco. Foto: Flickr, EPP

Os movimentos de massa na Catalunha são apenas os primeiros sintomas de revolta contra essa ditadura. O mesmo espírito de revolta se manifestará mais cedo ou mais tarde em todo o país.

Riqueza e pobreza

O descontentamento crescente em todos os lugares é expressão de polarização extrema: a concentração do capital que Marx previu há muito tempo e que foi furiosamente contestada pelos economistas e sociólogos desde então.

Quem hoje em dia pode negar a verdade da previsão de Marx? A concentração do capital ocorreu como uma fórmula laboratorial. Menos de 200 corporações gigantes agora controlam o comércio mundial. Uma riqueza obscena está concentrada nas mãos de uns poucos. Só em 2017, os bilionários do mundo aumentaram sua riqueza global combinada em um quinto.

Segundo Josef Stadler, o chefe global da Ultra High Net Worth Division da UBS, hoje “a desigualdade da riqueza é a mais alta desde 1905”. Os 1% mais ricos do mundo são donos de metade da riqueza global, de acordo com um novo informe que destaca a brecha crescente entre os super-ricos e todos os demais.

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Um informe de Credit Suisse mostrou que as pessoas mais ricas do mundo aumentaram sua riqueza de 42%, no ponto auge da crise financeira de 2008, a 50,1% em 2017, um aumento de 140 trilhões de dólares (107 trilhões de libras). O relatório nos informa:

“A porção dos 1% do topo esteve em caminho ascendente desde [a crise], ultrapassando o nível de 2000 em 2013 e alcançando novos picos todos os anos a partir de então”. O banco afirmou que “a desigualdade da riqueza global certamente foi alta e aumentou no período posterior à crise”.

O aumento da riqueza entre os já muito ricos levou ao surgimento de 2,3 milhões de novos milionários no ano passado, levando o total a 36 milhões. “O número de milionários, que caiu em 2008, recuperou-se rapidamente depois da crise financeira, e agora é quase três vezes a cifra de 2000”.

Esses milionários – que somam 0,7% da população adulta do mundo – controlam 46% da riqueza total global que agora se representa na assombrosa cifra de 280 trilhões de dólares.

Este é um dos lados do quadro. No outro extremo do espectro, os 3,5 bilhões dos adultos mais pobres do mundo possuem ativos de menos de 10.000 dólares (7.600 libras). Coletivamente, essas pessoas, que representam 70% da população ativa mundial, detêm apenas 2,7% da riqueza global. Para milhões de pessoas, essa é uma questão de vida ou morte.

Em 2017, em 45 países, cerca de 83 milhões de pessoas necessitaram de assistência alimentar de emergência – 70% a mais que em 2015. E em 2018, 76 milhões poderiam necessitar de assistência alimentar de emergência.

Casas destruídas próximo a Sanna, Iemên pela Arábia Saudita. Foto: Domínio Público

O Iêmen é um caso particularmente escandaloso. Como resultado da bárbara guerra de agressão realizada pela Arábia Saudita e seus aliados, 17 milhões de iemenitas não têm o suficiente para comer, e mais de 3 milhões de crianças e mulheres grávidas e lactantes sofrem de desnutrição aguda. A hipócrita mídia ocidental ignorou em grande medida essas atrocidades cometidas pelos bandidos sauditas, que estão deliberadamente se utilizando da fome como arma de guerra.

A importância do fator subjetivo

Nos últimos anos, o Oriente Médio apresentou um quadro de reação sombria: guerra, guerra civil, banhos de sangue, fanatismo religioso, massacres e caos. A chave dessa situação se encontra em três países: Egito, Turquia e Irã. Estes são os países onde o proletariado é mais forte e tem tradições revolucionárias. De um ponto de vista superficial, em todos os três países citados, a reação está sentada firmemente na sela. Mas essa avaliação está fundamentalmente equivocada.

As massas egípcias fizeram tudo o que se encontrava ao seu alcance para mudar a sociedade. Foi a ausência de liderança – e só isto – o que levou o magnífico movimento de 2011 a um beco sem saída. E, uma vez que a natureza abomina o vácuo, o espaço vago foi preenchido por Sisi e outros generais reacionários do exército. Como resultado, os trabalhadores e camponeses egípcios foram obrigados a passar mais uma vez através da dura escola da reação. Mas, mais cedo ou mais tarde, eles se levantarão mais uma vez. A ditadura de Sisi é uma cabana desconjuntada construída sobre pernas de frango. Sua fraqueza fatal é a economia. O povo do Egito necessita de pão, trabalho e moradias, que os generais são impotentes para proporcionar. Futuras explosões são inevitáveis.

Praça Tahrir durante a Revolução Egípcia de 2011. Foto: Flickr, Jonathan Rashad

Na Turquia também o potencial revolucionário das massas foi revelado no levantamento de 2013. Este último acabou sendo esmagado, e Erdogan teve êxito em desviar a atenção das massas jogando a carta do nacionalismo turco e desencadeando uma guerra brutal contra os Curdos. Mas o nacionalismo não coloca o pão na mesa de milhões de turcos desfavorecidos. Mais cedo ou mais tarde, uma reação contra o regime começará. E existem sinais de que já começou. Devemos observar a Turquia de perto no próximo período como uma das chaves do Oriente Médio.

A maioria da população mundial é jovem. E pelo menos 60% da juventude entre 15 e 24 anos de idade estão desempregados em todo o mundo. O descontentamento latente desses jovens foi o que provocou a Revolução Árabe alguns anos atrás.

Vemos agora o mesmo fenômeno se repetir nas ruas das cidades de todo o Irã. Como de costume, este movimento surgiu de repente, sem aviso prévio, como uma pesada pedra lançada nas águas de um lago calmo. Chocou e surpreendeu a todos os autodenominados experts, particularmente àqueles velhos e cansados cínicos da suposta esquerda, cujo principal estoque comercial é o ceticismo e uma crença profundamente enraizada de que nada vai acontecer e que as massas nunca se moverão. Todas essas pessoas “espertas” ficaram boquiabertas com esse movimento que, segundo eles, nunca iria acontecer.

Estes têm sido os maiores protestos do Irã. Foto: Domínio Público

“Mas essas manifestações são menores do que as de 2009”, os céticos se apressam a nos tranquilizar. Sim, menores, mas muito mais radicais, mais impetuosas, mais ousadas e menos cautelosas. Com a velocidade da luz, as demandas dos manifestantes passaram das demandas econômicas às demandas políticas, do desemprego e do alto custo de vida às exigências de derrubada de todo o regime. Os manifestantes destroçaram cartazes do líder supremo, o aiatolá Khamenei – algo extremamente perigoso e praticamente inaudito no Irã. Inclusive houve alguns relatos de ataques às imagens do defunto aiatolá Khomeini.

Quem eram esses manifestantes? Eram principalmente jovens, pobres, pessoas desempregadas, e não os estudantes universitários que predominavam nos protestos anteriores. Estavam desorganizados, não pertenciam a nenhum grupo político e não tinham uma ideia que os guiasse, exceto por uma coisa: um desejo ardente de mudança. Mas este é o ponto de partida de cada revolução.

O regime foi sacudido até as entranhas. Ele entende que este movimento, precisamente por causa de seu conteúdo de classe, representa, potencialmente, uma ameaça muito mais perigosa do que os milhões que saíram às ruas de Teerã em 2009. Suas vacilações parecem, à primeira vista, incompreensíveis. Dado o tamanho relativamente pequeno das manifestações, o poderoso aparato repressivo nas mãos dos mulás seria com segurança mais que suficiente para sufocar este protesto – como um homem apaga uma vela com dois dedos?

E, no entanto, enquanto escrevo estas linhas, o regime ainda não lançou uma campanha séria de repressão. O cão late, mas não morde. Por quê? Há duas razões principais. A primeira é que o regime está dividido e é muito mais fraco do que era no passado. A segunda é que eles entendem que por trás dos jovens que estão se manifestando estão milhões de iranianos que estão cansados de anos de pobreza extrema, desemprego e aumento dos preços dos alimentos.

Há muito que eles perderam a fé nos mulás que fingiam defender a moralidade e a honestidade, mas que são tão corruptos como o foram no passado os funcionários do Xá. Qualquer movimento contra os manifestantes provocaria uma reação violenta que veria milhões de pessoas nas ruas mais uma vez; só que, desta vez, também estariam os trabalhadores e não apenas estudantes e pessoas de classe média.

Os protestos do Irã estão mais ousados que em 2009 (apesar de menores) mas menos organizados. Foto: Livre Uso

Neste momento, é difícil de se prever exatamente qual será o futuro desta rebelião. Sua principal debilidade é a ausência de organização. Sem um claro plano de ação e uma firme compreensão das táticas e da estratégia, o movimento pode dissipar suas energias em uma série de ações descoordenadas que facilmente podem degenerar em meros tumultos. É isto o que o regime espera ansiosamente. Mais uma vez voltamos à questão central: a da liderança revolucionária.

Em 1938, Leon Trotsky escreveu que se podia reduzir a crise da humanidade à crise da liderança do proletariado. Houve muitos movimentos revolucionários no passado recente: no Egito, na Turquia, no Irã, na Grécia. Mas, em todos os casos, as massas se viram frustradas pela ausência do fator subjetivo: um partido e uma liderança revolucionários. Se no Egito, no momento da derrubada de Mubarak, existisse mesmo um pequeno partido revolucionário, toda a situação teria sido diferente.

Recordemos que, em fevereiro de 1917, os Bolcheviques tinham apenas oito mil membros dentro de um enorme país de 150 milhões de habitantes, principalmente camponeses. No entanto, no espaço de apenas nove meses, eles se transformaram em um poderoso partido capaz de liderar os trabalhadores e camponeses à tomada do poder.

Em fevereiro de 1917, os bolcheviques tinha apenas 8 mil membros, mas em nove meses eles tinham se transformado de um poderoso partido capaz de liderar os trabalhadores e camponeses à tomada do poder. Foto: Domínio Público

Ao entrarmos no Ano Novo, podemos ter confiança de que novas possibilidades revolucionárias se apresentarão em um país após o outro. O Irã mostra que mudanças bruscas e repentinas estão implícitas em toda a situação. Devemos estar preparados para aproveitar todas as oportunidades para espalhar as ideias do marxismo, para construir nossas forças, para nos conectarmos com as massas, começando com as camadas mais avançadas, e para construir as forças do marxismo em todos os lugares.

Quanto aos covardes, apóstatas e céticos que negam a perspectiva da revolução, podemos apenas encolher os ombros e repetir as palavras desafiadoras proferidas por Galileu Galilei: Eppur si muove [E, no entanto, se move].

5 de janeiro de 2018

Tradução Fabiano Leite.

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