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2017: “Esquecer 2016” ou comemorar os 100 anos da Revolução russa?

O balanço do que foi 2016 e do que esperar em 2017 depende da classe social e de sua própria ideologia.

Foto: Refugiados do Mediterrâneo, uma das marcas do ano de 2016.

O balanço do que foi 2016 e do que esperar em 2017 depende da classe social e de sua própria ideologia. Para a maioria dos analistas pequeno-burgueses, que escrevem nos jornais, o sentimento todo é de perplexidade. A melhor representação desta perplexidade é um estudo feito por 5 psicólogos, a maioria da universidade de Waterloo no Canadá, que recebeu o prêmio IgNobel da Paz. A notícia do premio explica a própria pesquisa:

O prêmio foi para os autores do artigo “Sobre a recepção e detecção de mentiras pseudoprofundas” (“On the Reception and Detection of Pseudo-Profound Bullshit“). O artigo se dedica a esclarecer o processo de construção de bobagens criadas para parecer ter uma profundidade muito maior do que realmente têm, chegando ao ponto de expor um tweet do guru Deepak Chopra como exemplo de como usar palavras aleatórias não fazem uma frase ser profunda.  Mais especificamente, a frase abaixo:

“Atenção e intenção são as mecânicas da manifestação”

Os autores explicam um pouco sobre a frase: “Ela pode ter sido construída para impressionar o leitor com algum senso de profundidade, sem a exposição clara de um significado ou da verdade”.

O problema de todos estes analistas que querem “esquecer” 2016 ou pensam que podem explicar o Brexit, a vitória de Trump e a crise que continua após o impedimento de Dilma no Brasil é que eles partem da aparência dos fatos, esquecendo que por baixo deles existe uma luta de classes surda, aonde na maioria das vezes a maioria (o proletariado) não tem voz. Mas a sua luta, infelizmente para a burguesia, não cessa por que os seus porta-vozes se venderam à burguesia ou se perderam em teorias esdrúxulas do fim do proletariado e da “construção” de um precariado sem direitos. Esses senhores esqueceram a descrição que Engels faz da classe operária inglesa, na qual ele mostra que o proletariado não tem nenhum direito e tratam da frase que o proletariado na luta não tem nada a perder, a não ser seus grilhões, como simples frase de efeito, esquecidos do seu significado real.

A grande burguesia, por seu lado, sabe o que tem que defender. O editorial do NY Times que trata do balanço de 2016 e das perspectivas para 2017 (http://www.uol/noticias/especiais/o-ano-em-transformacoes.htm#um-ano-cataclismico) explica em poucas palavras o que a burguesia sentiu do ano que passou e o que espera do ano que vem:

O populismo e o nacionalismo vêm se espalhando por vários cantos do mundo, alimentado pela frustração das pessoas e pela globalização, pela perda da identidade e das certezas morais, pelo medo do terrorismo e das hordas de refugiados. Democracias liberais se fecharam, defensivas, antes que crescesse a popularidade de governantes autoritários. O voto britânico aprovando a separação da Europa sinalizou o poder dessas mudanças; e aí veio a eleição norte-americana.

Como a queda do Muro de Berlim, exatamente 27 anos antes, a eleição de Donald J. Trump para presidente dos EUA foi um cataclisma que acabou reunindo vários movimentos, tendências e sinais quase imperceptíveis que acabaram indicando bruscamente uma mudança irrevogável no rumo de nossa vida. Em 1989, tínhamos certeza de que era para melhor; desta vez, não sabemos.

O que não deixa de ser assustador, pois o que vem por aí talvez nem sempre será bonito de se ver…

Ela não é uma fórmula fixa de governo (A democracia), mas sim um estilo de vida que está em constante adaptação e mudança, refletindo nossas maiores esperanças e piores medos – que, no momento, estão à tona, mas, com o tempo, a esperança sempre prevalece.

Por isso, mesmo com esse fator de mudança mais chocante de todos, não devemos nos desesperar.

Sim, a burguesia tem plena consciência dos seus atos. O que vem por aí não “será bonito de se ver”. Isto concentra toda uma análise da situação atual, das guerras, refugiados, terrorismo e da reação burguesa a estes acontecimentos – repressão!

A burguesia tem consciência clara do que produziu estes “fenômenos” como ela os chama – foi a crise econômica de 2008, crise de superprodução que não se encerrou e o fato da burguesia jogar os resultados da crise em cima da classe trabalhadora.

Claro que ela tenta de todas as formas mostrar que existe um futuro rosa no capitalismo. O jornal tem todo um balanço já prevendo a curiosidade que a revolução russa de 1917 vai despertar na juventude e nos trabalhadores – a de que a queda do Muro de Berlim em 1989 e a destruição da URSS foi uma coisa para melhorar o mundo.

Os próprios jornais burgueses e seus estudiosos tratam com muito cuidado este tema. Afinal, os dados “oficiais” de hoje dizem que somente agora em 2016 é que a expectativa de vida na Rússia se igualou a expectativa de vida em 1990 da ex-URSS. A desigualdade brutal introduzida com a restauração do capitalismo, a miséria que assola milhões e milhões, a queda no nível de educação e saúde públicas foram tremendas demais para serem medidas e expostas pelo capitalismo.

Apesar disso, um artigo de El Pais quer fazer crer que o único futuro possível e luminoso para todos é o capitalismo (http://brasil.elpais.com/brasil/2016/12/29/internacional/1483020328_085937.html)

Há uma ampla percepção de que o mundo retrocede, de que nos dirigimos para uma espécie de caos. Segundo um levantamento do Instituto Motivaction, 87% da população mundial acredita que nos últimos 20 anos a pobreza global permaneceu igual ou se agravou. O paradoxo é que os dados deixam claro que essa é uma ideia falsa. O mundo melhorou ao invés de piorar.

O cientista cognitivo Steven Pinker, professor da universidade de Harvard, é um dos autores que mais forneceram dados em defesa dessa tese. Seu livro Os Anjos Bons da Nossa Natureza (Companhia das Letras) busca demonstrar que vivemos na época mais pacífica e próspera da história. “As pessoas, em todos os cantos do mundo, estão mais ricas, gozam de mais saúde, são mais livres, têm mais educação, estão mais pacíficas e desfrutam de uma maior igualdade do que nunca antes”, diz Pinker ao EL PAÍS. “Todas as estatísticas indicam que melhoramos. Em geral, a humanidade se encontra melhor que nunca.”

O que acontece com a crise? Muitos políticos exibem a crise como evidência de que estamos pior. E, de certo modo, têm razão. Pinker explica: “Existem períodos de altos e baixos que, em geral, não chegam a alterar uma progressão continuada. Por exemplo, a taxa de crimes nos Estados Unidos cresceu um pouco no ano passado em relação ao anterior, mas em geral a tendência global é de queda. Outro exemplo: o número de mortos em guerras aumentou após 2011, por conta da guerra da Síria, mas continuou sendo muito menor do que nos anos 50, 60, 70, 80 e 90.

Mas de novo é preciso olhar para além de nossas fronteiras. Se o fizermos veremos que a desigualdade global não cresce, e sim diminui. O motivo é que milhões de pessoas na China, Índia e outros países escaparam da pobreza. “Os pobres estão enriquecendo mais rápido do que os ricos”, explica Pinker.

Realmente, somos forçados a concordar que prêmio IgNobel da Paz nunca foi tão bem escolhido. Afinal, a quantidade de asneira que os dois autores do artigo escrevem (KIKO LLANERAS, NACHO CARRETERO) é tão grande que é difícil saber em que lugares eles conseguiram tais dados “positivos”. Afinal, 100 guerras pelo mundo, mais de 60 milhões de refugiados, mais refugiados do que durante a II Guerra Mundial e estes senhores falam em “melhoras”? Provavelmente estão muito bem pagos para não verem os desempregados, os que são despejados de suas casas, a miséria que se espalha pelo mundo inteiro e a superexploração nas fábricas da China e da Índia. Realmente, no mundo há espaço para tudo, principalmente para aqueles que são pagos pela burguesia para defenderem sua dominação, ainda que para isso tenham que torturar os pobres dados estatísticos até eles fornecerem a imagem do mundo que eles querem.

Há mais de 100 anos, a marxista Rosa de Luxemburgo deu a todos estes senhores a resposta que eles merecem:

A ideia é, supõe-se, que o regime capitalista fará nascer de si próprio, a partir das suas contradições internas, o momento em que o seu equilíbrio será rompido e onde se tornará propriamente impossível. Que se imaginava esse momento com a forma de uma crise comercial geral e catastrófica, havia fortes razões para o fazer, mas é, em última análise, um detalhe acessório da ideia fundamental. Com efeito, o socialismo científico apoia-se, é sabido, em três dados fundamentais do capitalismo: 1º, na anarquia crescente da economia capitalista que conduzirá fatalmente ao seu afundamento; 2º, sobre a socialização crescente do processo de produção que cria os primeiros fundamentos positivos da ordem social futura; 3º, finalmente, na organização e na consciência de classe cada vez maiores do proletariado e que constituem o elemento activo da revolução iminente. (Rosa de Luxemburgo, Reforma ou Revolução, cap. I)

Podemos fazer um balanço hoje desta situação. A anarquia capitalista é tão grande que produz mais alimentos que pode “distribuir” de forma capitalista, ou seja, vendê-los e os alimentos apodrecem enquanto dezenas de milhares morrem de fome. A anarquia capitalista é tão grande que a cidade de Pequim tem que parar porque o ar se tornou irrespirável em virtude da poluição. A produção é tão socializada, tão mundializada, que os navios e aviões cruzam céus e mares com peças e produtos que abastecem todo o mundo, concentrando a produção industrial em poucos lugares da terra. Mas existe um trabalho a ser feito – aumentar a organização e a consciência de classe do proletariado. E neste ponto estamos piores do que estavam os trabalhadores no início do século XX (quando Rosa terminou este vigoroso ensaio).

O trabalho da Esquerda Marxista e da CMI é justamente de ajudar a superar a distância existente hoje entre a necessidade de organização do proletariado para subverter a ordem vigente e implantar o socialismo. Para isso combatemos pela construção de uma Internacional Proletária, de um partido mundial da classe trabalhadora, a nosso ver a IV Internacional reconstruída.

Bem vindo 2017. Bem vindo todos ao centenário da Revolução Russa e façamos deste ano um grande ano de estudos e luta para superar o capitalismo. A barbárie capitalista está mostrando a que veio dia a dia. Chegou o tempo dos comunistas mostrarem o caminho em direção a um novo mundo, um mundo socialista.

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