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2016: a morte do liberalismo

O que os reformistas não entendem é que, se você aceita o capitalismo, deve também aceitar as leis do capitalismo. E, sob as condições modernas, isto significa aceitar cortes e austeridade.

O ano de 2016 terminou com duas ocorrências das mais dramáticas e sangrentas: o assassinato do embaixador russo em Istanbul e o assassinato brutal de pessoas em Berlim que estavam desfrutando pacificamente os preparativos do Natal. Estes acontecimentos estavam ligados ao sangrento pântano no Oriente Médio e, mais especificamente, à Síria.

A queda de Aleppo representou uma virada decisiva na situação. A Rússia, que se supunha encontrar-se isolada e humilhada pela “comunidade internacional” (leia-se Washington), agora controla a Síria e decide o que acontece ali. Ela convocou uma conferência de paz no Cazaquistão para a qual nem os estadunidenses nem os europeus foram convidados, seguida por um acordo de cessar-fogo ditado sob termos russos.

Sob diferentes formas, estes desenvolvimentos expressaram o mesmo fenômeno: a velha ordem mundial está morta e em seu lugar estamos diante de um futuro de instabilidade e conflitos, cujos resultados ninguém pode prever. O ano de 2016, portanto, representou um ponto de virada na história. Foi um ano marcado por crises e turbulências em escala global.

Vinte e cinco anos atrás, depois da queda da União Soviética, os defensores do capitalismo estavam eufóricos. Falavam da morte do socialismo e do comunismo e até mesmo do fim da história. Prometeram-nos um futuro de paz e prosperidade graças ao triunfo da economia de livre mercado e da democracia.

O liberalismo havia triunfado e, dessa forma, a história havia alcançado sua expressão final no capitalismo. Era este o significado essencial da frase, agora de reputação duvidosa, de Francis Fukuyama. Mas agora a roda da história fechou completamente o círculo. Hoje não sobra pedra sobre pedra daquelas previsões confiantes dos estrategistas do capital. A história voltou para se vingar.

De repente, o mundo parece ter sido atingido por um fenômeno estranho e sem precedentes que desafia todas as tentativas dos especialistas políticos em explicá-lo. Em 23 de junho, o povo da Grã-Bretanha votou em um referendo para deixar a União Europeia – um resultado que ninguém esperava e que causou ondas de choque em escala internacional. Mas estas não eram nada quando comparadas ao tsunami provocado pelo resultado das eleições presidenciais estadunidenses – um resultado que ninguém esperava, inclusive o homem que as ganhou.

Poucas horas depois da eleição de Donald Trump, as ruas das cidades em todo os Estados Unidos estavam cheias de manifestantes. Estes eventos são a confirmação dramática da instabilidade que atingiu o mundo inteiro. Da noite para o dia, as velhas certezas desapareceram. Há uma fermentação geral na sociedade e um sentimento generalizado de incerteza encheu a classe dominante e seus ideólogos com profundos pressentimentos.

Os apologistas do liberalismo capitalista queixam-se amargamente da ascensão de políticos como Donald Trump que representam a antítese do que é conhecido como “valores liberais”. Para essas pessoas, o ano de 2016 assemelha-se a um pesadelo. Esperam despertar do pesadelo e descobrir que tudo foi como um sonho, que o dia de ontem vai voltar e que amanhã veremos um dia melhor. Mas para o liberalismo burguês não haverá nenhum despertar e nenhum amanhã.

Os comentaristas políticos falam medrosamente do surgimento de algo que eles chamam de “populismo”, uma palavra que é tão elástica quanto sem sentido. O uso dessa terminologia amorfa apenas significa que os que a usam não têm a menor ideia do que estão falando. Em termos etimológicos estritos, populismo é somente a tradução latina da demagogia grega. O termo é aplicado com o mesmo entusiasmo com que um mau pintor reboca uma parede com uma grossa camada de argamassa para cobrir os seus erros. Ele é usado para descrever tal variedade de fenômenos políticos que se torna totalmente desprovido de qualquer conteúdo real.

Os líderes de PODEMOS e Geert Wilders, Jaroslaw Kaczynski e Evo Morales, Rodrigo Duterte e Hugo Chávez, Jeremy Corbyn e Marine Le Pen – todos são igualados pelo mesmo pincel populista. Basta comparar o conteúdo real destes movimentos, que não são apenas diferentes como também radicalmente antagônicos, para se perceber a total futilidade desta linguagem. Ela não foi calculada para esclarecer, mas para confundir, ou, mais corretamente, para encobrir a confusão dos estúpidos comentaristas políticos burgueses.

A morte do liberalismo

Em seu editorial de 24 de dezembro de 2016, The Economist cantou um hino de louvor ao seu amado liberalismo. Diz-nos que os liberais acreditam em “economias abertas e sociedades abertas, onde a livre troca de bens, de capitais, de pessoas e ideias é encorajada e onde as liberdades universais são protegidas do abuso do estado pelo governo da lei”. De tão lírico, isto devia ter um acompanhamento musical.

Mas logo o artigo com tristeza conclui que 2016 “foi um ano de contratempos. Não apenas pelo Brexit e pela eleição de Donald Trump, como também pela tragédia da Síria, abandonada ao seu sofrimento, e pelo amplo apoio – na Hungria, Polônia e mais além – à ‘democracia não liberal’. Como a globalização se tornou um estigma, o nacionalismo, e mesmo o autoritarismo, floresceram. Na Turquia, o alívio pelo fracasso de um golpe foi superado pelas represálias selvagens (e populares). Nas Filipinas, os eleitores escolheram um presidente que não só implantou esquadrões da morte, como também se gabou de ter puxado o gatilho. Enquanto isto, a Rússia, que pirateou a democracia Ocidental, e a China, que na semana passada tentou burlar-se dos EUA ao tomar um de seus drones marítimos, insistem que o liberalismo é apenas uma cobertura para a expansão Ocidental”.

O belo hino de louvor ao liberalismo e aos valores Ocidentais terminou com uma nota amarga. The Economist conclui com amargura: “Diante desta ladainha, muitos liberais (da espécie livre-mercado) perderam a coragem. Alguns escreveram epitáfios à ordem liberal e lançaram avisos sobre a ameaça à democracia. Outros argumentam que, com um tímido ajuste à lei da imigração ou com uma tarifa extra, a vida simplesmente voltará à normalidade”.

Mas a vida não “voltará simplesmente à normalidade” – ou, mais corretamente, entraremos em uma nova etapa a que se refere The Economist como uma “nova normalidade”: um período de cortes sem fim, de austeridade e de queda dos padrões de vida. Na realidade, já estamos vivendo nesta nova normalidade há algum tempo. E consequências muito sérias decorrem disso.

A crise global do capitalismo criou condições que são completamente diferentes das condições que existiam (pelo menos para um punhado de países privilegiados) quatro décadas após a II Guerra Mundial. Este período testemunhou a maior ascensão das forças produtivas do capitalismo desde a Revolução Industrial. Este foi o solo sobre o qual poderiam florescer os tão proclamados “valores liberais”. O auge econômico proporcionou aos capitalistas lucros suficientes para permitir concessões à classe trabalhadora.

Esta foi a era dourada do reformismo. Mas o período atual é a era, não de reformas, mas de contrarreformas. Isto não decorre de preconceitos ideológicos, como alguns reformistas tolos imaginam. É a consequência necessária da crise do sistema capitalista que alcançou os seus limites. Todo o processo que se desenrolou ao longo de um período de seis décadas agora está sendo invertido.

Em vez de reformas e de elevação dos padrões de vida, a classe trabalhadora de todos os lugares está enfrentando cortes, austeridade, desemprego e empobrecimento. A degradação das condições de trabalho, dos salários, direitos e pensões recai mais pesadamente sobre os setores mais pobres e mais vulneráveis da sociedade. A ideia de igualdade das mulheres está erodindo pela busca sem remorso de maior rentabilidade. Toda uma geração de jovens está sendo privada de um futuro. Esta é a essência do presente período.

O momento Maria Antonieta da elite

A classe dominante e seus estrategistas têm dificuldade para aceitar a realidade da presente situação e estão completamente cegos para as consequências políticas que derivam dela. A mesma cegueira pode ser observada em cada classe dominante que está enfrentando a extinção e se recusa a aceitá-la. Como observou corretamente Lênin, um homem que está à beira de um abismo não raciocina.

The Financial Times publicou um interessante artigo de Wolfgang Münchau intitulado “O momento Maria Antonieta da elite”. Começa assim:

“Algumas revoluções poderiam ter sido evitadas se a velha guarda tivesse se abstido da provocação. Não há nenhuma prova de um incidente do tipo “que comam brioches”. Mas este é um tipo de coisa que Maria Antonieta poderia ter dito. Soa verossímil. Os Bourbons eram duros de bater como a quintessência da falta de sintonia com o establishment.

“Eles agora têm concorrentes.

“Nosso establishment liberal democrático global está se comportando da mesma forma. Em um momento em que a Grã-Bretanha votou por deixar a União Europeia, em que Donald Trump foi eleito presidente dos EUA, e Marine Le Pen está marchando na direção do Palácio do Eliseu, nós – os guardiões da ordem liberal global – continuamos a nos dobrar”.

A comparação com a Revolução Francesa é altamente instrutiva. Em todos os lugares, a classe dominante e seus “especialistas” se mostraram completamente fora de contato com a situação real da sociedade. Assumiram que a ordem de coisas que emergiu do auge econômico do pós-guerra continuaria para sempre. A economia de mercado e a “democracia” burguesa eram os paradigmas inquestionáveis da época.

Sua complacência presunçosa se assemelhava precisamente à da infortunada Maria Antonieta, a Rainha da França. Não é certo que sua famosa frase tenha sido pronunciada, mas reflete com precisão a mentalidade de uma classe dominante degenerada que não tem nenhum interesse no sofrimento das pessoas comuns ou nas consequências inevitáveis que dele derivam.

No final, Maria Antonieta perdeu sua cabeça e agora a classe dominante e seus representantes políticos estão perdendo a deles. O artigo do Financial Times continua:

“Por que isto está acontecendo? Os macroeconomistas pensavam que ninguém ousaria desafiar sua autoridade. Os políticos italianos estiveram jogando Game Power o tempo todo. E o trabalho dos funcionários da União Europeia é encontrar maneiras engenhosas de animar a legislação politicamente complicada e os tratados anteriores às legislaturas nacionais. Mesmo com personalidades do tipo de Madame Le Pen, o senhor Grillo e Geert Wilders do partido de extrema-direita da Liberdade Holandesa caminhando na direção do poder, o establishment continua agindo desta forma. Um regente Bourbon, em um momento incomum de reflexão, retrocederia. Nossa ordem capitalista liberal, com suas instituições concorrentes, é constitucionalmente incapaz de fazer isto. Dobrar-se é o que está programada a fazer.

“O curso correto de ação seria parar de insultar os eleitores e, o que é mais importante, resolver os problemas de um setor financeiro fora de controle, os fluxos descontrolados de pessoas e capital, a distribuição desigual da renda. Na zona do euro, os líderes políticos consideraram oportuno embaralhar a crise bancária e, em seguida, a crise da dívida soberana – somente para descobrir que a dívida grega é insustentável e que o sistema bancário italiano está em sérios problemas. Oito anos depois, como sabemos, ainda existem investidores apostando no colapso da zona do euro”.

Em 1938, Trotsky escreveu que a classe dominante estava deslizando para o desastre com os olhos fechados. As linhas acima são uma ilustração gráfica deste fato. E o senhor Munchau tira a seguinte conclusão:

“Mas isto não está acontecendo pela mesma razão como não aconteceu na França revolucionária. Os guardiões do capitalismo ocidental, como os Bourbons antes deles, não aprenderam nada e não esqueceram nada”.

O colapso do centro

Ao contrário do velho preconceito dos liberais, a consciência humana não é progressista, mas profundamente conservadora. A maioria das pessoas não gostam da mudança. Aferram-se obstinadamente às velhas ideias, preconceitos, religião e moralidade porque são familiares e o que é familiar é sempre mais confortável do que não é. A ideia de mudança é aterradora porque é desconhecida. Esses temores estão profundamente enraizados na psique humana e existem desde tempos imemoriais.

No entanto, a mudança é tão necessária à sobrevivência da espécie humana quanto o é à sobrevivência do indivíduo. A ausência de mudança é a morte. O corpo humano muda constantemente desde o momento do nascimento; todas as células se decompõem, morrem e são substituídas por novas células. A criança deve desaparecer para que nasça o adulto.

Contudo não é difícil entender a aversão das pessoas à mudança. O hábito, a rotina, a tradição – todas estas coisas são necessárias para a manutenção das normas sociais que sustentam o funcionamento da sociedade. Durante um longo período tornam-se enraizadas, condicionando as atividades diárias de milhões de homens e mulheres. São universalmente aceitas, assim como o respeito às leis e aos costumes, às regras da vida política e às instituições existentes: em uma palavra, o status quo.

Algo similar existe na ciência. Em seu profundo e penetrante estudo A Estrutura das Revoluções Científicas, Thomas S. Kuhn explica como cada período no desenvolvimento da ciência está baseado em um paradigma existente que é geralmente aceito, proporcionando um marco necessário ao trabalho científico. Durante um longo tempo este paradigma serve a um propósito útil. Mas, eventualmente, aparecem pequenas contradições aparentemente insignificantes que levam à derrubada do velho paradigma e a sua substituição por um novo. Isto, de acordo com Kuhn, constitui a essência de uma revolução científica.

Exatamente o mesmo processo dialético ocorre na sociedade. As ideias que existiram por tanto tempo e que se cristalizaram em preconceitos eventualmente entram em conflito com a realidade existente. Nesse ponto, uma revolução na consciência começa a ocorrer. A pessoas começam a questionar o que parecia inquestionável. As ideias que eram confortáveis porque proporcionavam certezas são destroçadas na dura rocha da realidade. Pela primeira vez, as pessoas começam a descartar as velhas e confortáveis ilusões e a olhar a cara da realidade.

A causa real dos temores da classe dominante é o colapso do centro político. O que estamos vendo na Grã-Bretanha, nos EUA, na Espanha e em muitos outros países é uma aguda e crescente polarização entre esquerda e direita, o que, por sua vez, é meramente um reflexo de uma crescente polarização entre as classes. Isto, por sua vez, é um reflexo da crise mais profunda da história do capitalismo.

Durante os últimos cem anos o sistema político nos EUA esteve baseado em dois partidos – o Democrata e o Republicano – que defendiam a manutenção do capitalismo e representavam os interesses dos banqueiros e das grandes empresas. Isto foi muito bem expresso por Gore Vidal, que escreveu “nossa República tem um partido, o partido da propriedade, com duas alas de direita”.

Esta era a base sólida da estabilidade e longevidade do que os estadunidenses consideravam como “democracia”. Na realidade, esta democracia burguesa era apenas uma folha de parreira para esconder a realidade da ditadura dos banqueiros e dos capitalistas. Agora esse conveniente arranjo está sendo desafiado e abalado nos alicerces. Milhões de pessoas estão despertando para a podridão do establishment político e para o fato de que estão sendo enganadas por aqueles que pretendem representá-los. Esta é a condição prévia de uma revolução social.

Crise do reformismo

Vemos situação similar na Grã-Bretanha, onde durante cem anos Trabalhistas e Conservadores se alternaram no poder, proporcionando o mesmo tipo de estabilidade à classe dominante. O Partido Trabalhista e o Partido Conservador eram dirigidos por homens e mulheres sólidos e respeitáveis a quem se podia confiar a direção da sociedade no interesse dos banqueiros e capitalistas da City de Londres. Mas a eleição de Jeremy Corbyn perturbou este roteiro.

A classe dominante teme que a afluência massiva de novos membros no Partido Trabalhista possa quebrar o domínio da direita sobre o Partido Trabalhista. Isto explica o pânico da classe dominante e a natureza cáustica da campanha contra Corbyn.

A crise do capitalismo também é a crise do reformismo. Os estrategistas do capital se assemelham aos Bourbons, mas os líderes reformistas são somente uma pobre imitação dos primeiros. São os mais cegos dos cegos. Os reformistas, tanto os de variedade de direita quanto de esquerda, não têm nenhuma compreensão da situação real. Embora se orgulhem de ser grandes realistas, são o pior tipo de utópicos.

Como os liberais, de quem são apenas um pálido reflexo, eles estão definhando depois que o passado desapareceu sem retorno. Reclamam amargamente da injustiça do capitalismo, sem perceber que as políticas da burguesia são ditadas pela necessidade econômica do próprio capitalismo.

É uma suprema ironia da história que os reformistas tenham abraçado a economia de mercado precisamente no momento em que ela está se desintegrando diante de nossos próprios olhos. Eles aceitaram o capitalismo como algo que é dado de uma vez por todas, que não pode ser questionado e certamente não pode ser derrubado. O suposto realismo dos reformistas é o realismo de um homem que tenta persuadir a um tigre a comer saladas em vez de carne humana fresca. Naturalmente, o realista que tentou realizar este louvável feito não teve êxito em convencer ao tigre e acabou dentro de seu estômago.

O que os reformistas não entendem é que, se você aceita o capitalismo, deve também aceitar as leis do capitalismo. E, sob as condições modernas, isto significa aceitar cortes e austeridade. Em nenhum outro lugar a bancarrota do reformismo se expressa com mais claridade do que no fato de que não falam mais sobre socialismo. Nem falam sobre capitalismo. Em vez disso, queixam-se dos males do “neoliberalismo”, isto é, não se opõem ao capitalismo em si, mas unicamente a um modelo particular do capitalismo. Mas o chamado neoliberalismo é apenas um eufemismo para o capitalismo no período de crise.

Os reformistas que imaginam que são grandes realistas estão sonhando com um retorno às condições do passado, quando este passado já retrocedeu na história. O período que agora se abre será totalmente diferente. Nas décadas que se seguiram a 1945, a luta de classes nos países capitalistas avançados foi atenuada em certa medida em consequência das reformas conquistadas pela classe trabalhadora através da luta.

Há muito, Trotsky explicou que a traição está implícita no reformismo em todas as suas variedades. Mas isto não significa que os reformistas traem conscientemente a classe trabalhadora. Há muitos reformistas honestos, bem como um número razoável de carreiristas corruptos. Mas o caminho do inferno está calçado com boas intenções. Se se aceita o sistema capitalista – como o faz todos os reformistas, seja de direita ou de esquerda – então deve-se obedecer às leis do sistema capitalista. Em um período de crise capitalista, isto significa a inevitabilidade de cortes e de ataques aos padrões de vida.

Esta lição teve que ser aprendida por Tsipras e Varoufakis na Grécia. Eles chegaram ao poder com gigantesco apoio popular com um programa anti-austeridade, mas foram muito rapidamente obrigados a entender por Merkel e Schäuble que isto não se encontrava na agenda, No final, capitularam e humildemente realizaram o programa de austeridade ditado por Berlim e Bruxelas. Vimos situação similar na França, onde Hollande obteve uma vitória massiva prometendo um programa anti-austeridade. Em seguida, deu uma volta de 180o e realizou cortes ainda mais profundos do que o governo anterior de direita. O resultado inevitável foi a ascensão de Marine Le Pen e do Front Nacional.

O capitalismo em um beco sem saída

Em países como os EUA, todas as gerações desde a II Guerra Mundial poderiam esperar um melhor padrão de vida do que tinham desfrutado seus pais. Nas décadas de auge econômico os trabalhadores se acostumaram a vitórias relativamente fáceis. Os líderes sindicais não tiveram que lutar muito para obter aumentos salariais. As reformas eram consideradas a regra. Hoje foi melhor que ontem e amanhã será melhor que hoje.

No longo período de expansão capitalista, a consciência de classe dos trabalhadores ficou um tanto quanto embotada. Em vez de políticas socialistas de classe bem definidas, o movimento dos trabalhadores foi infectado com ideias estranhas através da correia de transmissão da pequena burguesia que cedia aos trabalhadores por um lado e afogava sua voz com as estridentes declamações do radicalismo de classe média.

A chamada correção política, com sua mistura de ideias semi-cozinhadas extraídas da lixeira do liberalismo burguês, foi aos poucos aceita inclusive nos sindicatos onde os líderes reformistas de direita se aferram ansiosamente a ela como substituta das políticas de classe e das ideias socialistas. Os reformistas de esquerda, em particular, desempenharam um papel pernicioso a este respeito. Serão necessários os golpes de martelo dos acontecimentos para demolir estes preconceitos que têm efeito corrosivo na consciência.

Mas a crise do capitalismo não permite tais luxos. A geração atual de jovens pela primeira vez enfrentará condições de vida piores do que seus pais desfrutaram. Gradualmente esta nova realidade está se impondo na consciência das massas. Esta é a razão da presente fermentação do descontentamento que existe em todos os países e que está adquirindo caráter explosivo. É a explicação para os terremotos políticos que sacudiram a Grã-Bretanha, Espanha, Grécia, Itália, EUA e muitos outros países. É uma advertência de que estão sendo preparados desenvolvimentos revolucionários.

É verdade que nesta etapa o movimento se caracteriza por enorme confusão. Como poderia ser de outra forma, quando as organizações e partidos que poderiam se colocar à cabeça de um movimento para transformar a sociedade, em vez disso se transformaram em obstáculos monstruosos no caminho da classe trabalhadora? As massas estão buscando uma saída da crise, colocando à prova partidos políticos, líderes e programas. Os que falham na prova são impiedosamente varridos para o lado. Há violentas colisões no front eleitoral, tanto à esquerda quanto à direita. Tudo isto é um prenúncio de uma mudança revolucionária.

Retrospectivamente, o período de meio século que se seguiu à II Guerra Mundial será visto como uma exceção histórica. A peculiar concatenação de circunstâncias que produziram esta situação com toda a probabilidade nunca mais se repetirá. O que enfrentamos agora é precisamente um retorno ao capitalismo normal. A face sorridente do liberalismo, do reformismo e da democracia será posta de lado para revelar a feia fisionomia do capitalismo, como ela realmente é.

Na direção de um novo Outubro!

Um novo período se abre diante de nós – um período de tempestades e tensões que será muito mais similar aos anos 1930 do que ao período pós-1945. Todas as ilusões do passado serão incineradas na consciência das massas com um ferro incandescente. Em um período como este a classe trabalhadora terá que lutar duramente para defender as conquistas do passado, e no curso de uma amarga luta chegará a entender a necessidade de um programa revolucionário completo. Ou o capitalismo é derrubado ou um terrível destino aguarda a humanidade. Essa é a única alternativa. Qualquer outro curso de ação é uma mentira e um engodo. É hora de se encarar a verdade.

Na base de um capitalismo enfermo não pode haver caminho à frente da classe trabalhadora e da juventude. Os liberais e os reformistas estão lutando com força para mantê-lo. Lamentam as ameaças à democracia, ocultando o fato de que a chamada democracia burguesa é meramente uma folha de parreira que esconde a crua realidade da ditadura dos bancos e das grandes empresas. Tentarão atrair a classe trabalhadora com alianças para “defender a democracia”, mas esta é uma farsa hipócrita.

A única força que tem um interesse real na democracia é a própria classe trabalhadora. A chamada burguesia liberal é incapaz de combater a reação, que deriva diretamente do sistema capitalista sobre o qual se baseiam sua riqueza e privilégios. Foi Obama quem pavimentou o caminho para a vitória de Trump, como Hollande que pavimentou o caminho para a ascensão de Le Pen.

Na realidade, o velho sistema já está se decompondo ante nossos próprios olhos. Os sintomas de sua decadência são evidentes para todos. Por todos os lugares vemos crises econômicas, rupturas sociais, desordem, guerras, destruição e caos. É um quadro terrível, mas deriva do fato de que o capitalismo levou a humanidade a um beco sem saída.

Não é a primeira vez que vemos tais coisas. Os mesmos sintomas podem ser vistos no período da decadência e queda do Império Romano e no período da decadência da sociedade feudal. Não é uma casualidade que os homens e mulheres naqueles dias imaginavam que o fim do mundo estava se aproximando. Mas o que se aproximava não era o fim do mundo, mas somente o fim de um sistema socioeconômico particular que exauriu seu potencial e se transformou em um obstáculo monstruoso no caminho do progresso humano.

Lênin disse uma vez que capitalismo é horror sem fim. Vemos agora a verdade literal desta afirmação. Mas, ao lado dos horrores produzidos por um sistema decadente e reacionário, existe o outro lado do quadro. Nossa época é um tempo de nascimento e um período de transição de um período histórico a outro. Tais períodos são sempre caracterizados por dores, que são as dores de uma nova sociedade que está lutando para nascer, enquanto a velha sociedade luta para se manter estrangulando a criança no ventre materno.

O velho mundo está desabando sobre os seus pés. Que está cambaleando prestes a cair é indicado por sintomas inequívocos. A podridão está se espalhando na ordem estabelecida das coisas, suas instituições estão entrando em colapso. Os defensores da velha ordem estão tomados pelo pressentimento indefinido de algo desconhecido. Todas essas coisas pressagiam que há algo mais que se aproxima.

Este desmoronamento gradual será acelerado com o surgimento da classe trabalhadora na cena da história. Os céticos que descartaram a classe trabalhadora se verão obrigados a engolir suas próprias palavras. Estão sendo acumuladas forças vulcânicas sob a superfície da sociedade. As contradições estão se acumulando até o ponto em que não podem mais ser toleradas.

Nossa tarefa é encurtar este processo doloroso e assegurar que o nascimento se realize com o menor sofrimento possível. A fim de fazer isto, é necessário lograr a derrubada do sistema atual que se converteu em uma terrível barreira ao desenvolvimento da raça humana e em uma ameaça ao seu futuro.

Todos os que estão tratando de preservar a velha ordem, de lhe colocar remendos, de reformá-la, para dotá-la de muletas que lhe permitam andar por mais alguns anos ou décadas, desempenham um papel dos mais reacionários. Estão impedindo o nascimento de uma nova sociedade, a única que pode oferecer um futuro à humanidade e que pode dar um fim ao pesadelo do capitalismo existente.

O novo mundo que está lutando para nascer se chama socialismo. É tarefa nossa assegurar que este nascimento se realize o mais rapidamente possível e com o mínimo de dores e sofrimentos. A maneira de se lograr este objetivo é através da construção de uma forte corrente marxista em todo o mundo, com quadros educados e com fortes vínculos com a classe trabalhadora.

Há cem anos teve lugar um acontecimento que mudou o curso da história mundial. Em um país semifeudal atrasado, nos confins da Europa, a classe trabalhadora se movimentou para mudar a sociedade. Ninguém esperava isto, pelo contrário. As condições objetivas para uma revolução socialista na Rússia pareciam inexistentes.

A Europa se encontrava nas garras de uma guerra terrível. Os trabalhadores da Grã-Bretanha, França, Alemanha e Rússia estavam se matando entre si em nome do imperialismo. Nesse contexto, a palavra de ordem: “Proletários de todos os países, uni-vos!” devia parecer uma expressão sarcástica e amarga. A própria Rússia era governada por um poderoso regime autocrático, tinha um grande exército, uma força policial e uma polícia secreta, cujos tentáculos se espalhavam em todos os partidos políticos – incluindo os bolcheviques.

Mas nesta situação aparentemente impossível os trabalhadores da Rússia se movimentaram para tomar o poder em suas próprias mãos. Eles derrubaram o czar e estabeleceram organismos de poder democráticos, os Sovíetes. Somente nove meses depois o Partido Bolchevique, que no começo da revolução era uma pequena força de não mais de oito mil membros, chegou ao poder.

Cem anos mais tarde, os marxistas enfrentam a mesma tarefa que Lênin e Trotsky enfrentaram em 1917. Nossas forças são pequenas e nossos recursos escassos, mas estamos armados com a arma mais poderosa: a arma das ideias. Marx dizia que as ideias se convertem em uma força material quando se apoderam da mente das massas. Durante muito tempo estivemos lutando contra uma poderosa corrente. Mas a maré da história agora flui firmemente a nosso favor.

As ideias que são ouvidas por uns poucos hoje serão recebidas com entusiasmo por milhões no período que agora se abre. Grandes acontecimentos podem ocorrer com rapidez extrema, transformando toda a situação. A consciência da classe trabalhadora pode mudar em questão de dias ou horas. Nossa tarefa é preparar os quadros para os grandes acontecimentos que se aproximam. Nossa bandeira é a bandeira de Outubro. Nossas ideias são as ideias de Lênin e Trotsky. Essa é a maior garantia de nosso êxito.

Londres, 5 de janeiro de 2017.


Artigo publicado originalmente em 5 de janeiro de 2017, no site da Corrente Marxista Internacional, sob o título: “2016: The Death of Liberalism”.
 
Tradução de Fabiano Leite
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